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quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Caso de Dr. Bumbum mostra que beleza tem sido encarada como virtude moral, diz filósofa



Por Luiza Franco/BBC 
Já sentiu orgulho de si por ter mantido uma dieta ou ido à academia? Já se sentiu mal por não fazer uma dessas coisas? "Emagrecer x quilos" já fez parte das suas resoluções de ano novo? A filósofa inglesa Heather Widdows, que pesquisa nossa relação com padrões de beleza, diz que cada vez mais a beleza é um ideal ético. 
"Nos sentimos 'bons' quando mantemos a dieta, vamos à academia. Nos sentimos displicentes quando abandonamos a dieta, pulamos a academia. Falamos muito que não devemos 'nos descuidar', que 'merecemos' estar bem. Achamos que se tivermos o corpo que queremos teremos o relacionamento que queremos. Fazemos coisas desagradáveis que são vistas como coisas boas porque 'você está investindo em você'", diz. 
A professora da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, lançou recentemente o livro Perfect Me (Princeton UP), em que argumenta que ideais de beleza são mais rigorosos do que nunca, apesar de haver mais diversidade de tipos de corpos na mídia. 
À BBC News Brasil, ela falou sobre o caso do Dr. Bumbum, preso depois que uma paciente, que passou por procedimentos estéticos em seu apartamento, morreu: "Quanto mais virmos beleza como uma virtude, mais faremos para ficar belos, e isso torna mais provável que coisas desse tipo aconteçam com cada vez mais frequência." Ela diz que é importante não culpar a vítima quando algo assim acontece. "Devemos olhar coletivamente para o ambiente tóxico que criamos e pensar em como mudá-lo. Culpar pessoas individualmente é totalmente improdutivo e inadequado."
BBC News Brasil - No seu livro, você argumenta que práticas de busca da beleza se tornaram normais, quando não deveriam ser. Como isso foi mudando com o tempo?
Widdows - Vamos pensar em exemplos históricos, coisas como o uso de corselete ou pés de lotus (prática antiga da elite chinesa de amarrar os pés das meninas para que eles não crescessem, algo que era considerado bonito). Não eram consideradas coisas "normais". A mulher aristocrata chinesa podia até achar que seu pé ficava bonito daquele jeito, mas não via aquilo como algo normal. Isso valia para o resto da sociedade. Mas quando o ideal de beleza se tornou global, práticas passaram a ser obrigações. Por exemplo, remoção de pelos: não é mais visto como uma forma de se embelezar, mas como uma questão de higiene. Você vê as mulheres falando que pelos são nojentos, anti-higiênicos, anormais. O corpo "normal" é o corpo sem pelos.
BBC News Brasil - É possível traçar paralelos entre o caso do Dr. Bumbum e as conclusões da sua pesquisa?
Heather Widdows - Achamos que as pessoas colocam a saúde acima da beleza, mas cada vez mais a beleza está se tornando uma virtude, e com isso as pessoas passam a fazer qualquer coisa por ela. Quanto mais virmos beleza como uma virtude, mais faremos para ficar belos, e isso torna mais provável que coisas desse tipo aconteçam com cada vez mais frequência. As pessoas passam a fazer qualquer coisa para atingir o ideal.
BBC News Brasil - Não corremos o risco de culpar as vítimas se pensarmos assim?
Widdows - Temos que evitar culpar as pessoas individualmente pelo que fazem ou não fazem no que diz respeito à beleza. Não funciona e não é justo. Se fizermos isso, deixamos de levar em conta o quão dominante é o ideal de beleza e a sua relação com a ética. Devemos olhar coletivamente para o ambiente tóxico que criamos e pensar em como mudá-lo. Culpar pessoas individualmente é totalmente improdutivo e inadequado.
BBC News Brasil - Como essa busca por beleza foi se misturando à moral e à ética na nossa sociedade?
Widdows - Uma coisa só se torna uma referência ética se for totalmente normalizada. Práticas de culto à beleza se tornaram totalmente normalizadas, e cirurgias plásticas, ainda que não sejam tão populares, são cada vez mais comuns.
Vamos pensar em resoluções de ano novo. Antigamente fazíamos resoluções ligadas à nossa personalidade -- queríamos ser mais ponderados, gentis, honestos. Agora queremos perder peso, ir mais à academia. 
Cada vez mais "melhorar" quer dizer melhorar nossos corpos. Nossos objetivos de longo prazo são esses. Nos sentimos "bons" quando mantemos a dieta, vamos à academia. Nos sentimos displicentes quando abandonamos a dieta, pulamos a academia. Falamos muito que não devemos "nos descuidar", que "merecemos" estar bem. Achamos que, se tivermos o corpo que queremos, teremos o relacionamento que queremos. Fazemos coisas desagradáveis que são vistas como coisas boas porque "você está investindo em você".
BBC News Brasil - Como chegamos a esse ponto?
Widdows - Não dá para identificar um fator específico, mas há alguns que, juntos, criam uma tempestade perfeita. O fato de nosso cultura de comunicação ser cada vez mais visual é um deles. É preciso estar sempre pronto para ser fotografado ou filmado. A tecnologia também influencia. Por exemplo, a rainha Elizabeth 1ª era muito preocupada com sua aparência, especialmente com o envelhecimento, mas não tinha muito o que ela pudesse fazer a respeito além de botar maquiagem, mas hoje em dia, há muita coisa que se pode fazer. 
E há também a cultura de consumo. Mostramos nossa identidade através do que consumimos. Isso se mostra no nosso corpo, os produtos que compramos para nosso corpo. Isso se tornou uma medida pela qual julgamos os outros e nós mesmos. Queremos chegar a um ideal de magreza, firmeza, maciez, juventude. 
BBC News Brasil - Como chegamos a esses ideais?
Widdows - Foi de forma gradual. Acho que estamos caminhando na direção de uniformidade. Ideais locais de cada país ou região estão convergindo e há cada vez mais um padrão global. A magreza é valorizada de alguma forma em quase todo lugar. As barrigas e cinturas têm que ser finas e magras.
BBC News Brasil - No entanto, há mais tipos de beleza sendo representados na mídia. 
Widdows - Acho que é isso é uma ilusão. Se você prestar atenção, verá que modelos sempre se encaixam em algum dos padrões de magreza, firmeza, maciez, juventude. Raramente vemos alguma modelo que não se encaixe em nenhum desses padrões e ainda seja considerada bonita. Modelos mais gordas têm curvas firmes, e não flácidas, peludas, cheias de celulite. Há coisas positivas de diversidade, qualquer coisa que dê visibilidade ao diferente é positiva, mas há certa ilusão a respeito do quão diversa essa diversidade realmente é.
BBC News Brasil - Também há um movimento feminista forte que questiona a imposição desses padrões.
Widdows - Sim, e finalmente conseguimos romper com práticas com movimentos como o MeToo, mas o ideal da beleza foi crescendo e crescendo sem que a gente percebesse. É mais esquivo. Pensamos nas práticas de beleza como uma escolha pessoal, mas no final das contas, vemos essas coisas como obrigações. Se tornaram algo necessário para você ser normal. Temos que prestar atenção nisso para não vivermos numa sociedade onde todos se sentem mal.
BBC News Brasil - Seu livro foca em mulheres, mas como vê esse cenário para os homens?
Widdows - Esse fenômeno tem afetado homens e eles estão também sofrendo ansiedade e pressão para se encaixar em padrões. Mas a pressão é diferente. Há mais padrões possíveis de beleza, nao há tanta pressão para não parecer velhos. 
BBC News Brasil - Há quem diga que exercício físico é uma busca pela saúde, algo positivo.
Widdows - A saúde pode ser usada como uma desculpa para tornar certos comportamentos aceitáveis. Às vezes as pessoas dizem que estão fazendo coisas pela saúde, mas, na verdade, é por beleza. Mas há também o fato de que algumas práticas são de fato saudáveis. Os padrões são complicados porque não são só ruins, há aspectos bons também.
BBC News Brasil - O que se pode fazer para aliviar essa pressão toda?
Widdows - Precisamos parar de nos culpar e de apontar o dedo para os outros. As pessoas sentem culpa pelo que fazem e não fazem a respeito de beleza.
Matéria original no site da BBC Brasil, disponível aqui.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

PMMA: cirurgião plástico explica o que é a substância utilizada pelo Dr. Bumbum nas Bioplastias


Especialista alerta para o uso de uma substância ainda pior que o PMMA, o silicone industrial
Por Rebeka Gonçalves
No mês passado, a bancária Lilian Calixto, de 46 anos, morreu após passar por um procedimento estético na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Parentes contaram que ela saiu de Cuiabá, no Mato Grosso, onde mora, para fazer uma bioplastia nos glúteos. A intervenção foi realizada no apartamento do médico Denis Cesar Barros Furtado, na Barra. 
Lilian passou por complicações e foi socorrida para o Hospital Barra D’or em estado extremamente grave, segundo a unidade de saúde. O hospital informou que foi usado polimetilmetacrilato durante o procedimento estético e que fez várias tentativas para reverter o quadro de saúde da bancária. De acordo com o Ministério da Saúde, a substância, também conhecida pela sigla PMMA ou por metacril, é um produto composto por microesferas de um material parecido com plástico.
“PMMA é o polimetilmetacrilato aquoso, é uma substância alo plástica injetável que foi utilizada há algum tempo, mas não foi muito bem aceita pelas complicações, inclusive ela não tem uma liberação ampla pela Anvisa, ela tem liberação classe três, que é uma substância parcialmente restrita.  Foi liberada para fazer preenchimento em face de aidéticos em pequenas quantidades. Ainda assim, muitas complicações de necrose, isquemia, inflamação posterior, abscedação podem surgir”, explica o cirurgião plástico, Fábio Nóbrega. 
Apesar das complicações, a injeção do produto para aumento de volume de regiões como o bumbum e a coxa – conhecida como bioplastia – é oferecida por vários estabelecimentos. A colocação do produto é feita com uma microcânula (uma agulha sem ponta) e com anestesia local. Mas, o especialista esclarece que o PMMA não é absorvido pelo corpo, portanto trata-se de um procedimento permanente.
“No Brasil, os sistemas de controle de utilização dessas substâncias também são muito falhos, de forma que temos milhares de doutores bumbuns, médicos, não-médicos, enfermeiros e auxiliares de enfermagem, biomédicos e outras especialidades de saúde, e até gente que não tem nada a ver com a área da saúde fazendo aplicação não só de PMMA, mas principalmente de uma substância ainda pior que é o silicone industrial. O PMMA é importado livremente e utilizado sem restrições severas”, alerta o cirurgião plástico.   
Um estudo realizado pelo cirurgião plástico Claudio Cardoso de Castro, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e membro da Academia Nacional de Medicina (ANM), sobre os efeitos do uso do PMMA no organismo, em 2009, concluiu que o produto pode mudar de lugar, levando a deformações, além de provocar degeneração nas células do organismo.
A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) tem alertado a população sobre os riscos dos procedimentos com polimetilmetacrilato. Segundo pesquisa realizada pela Regional São Paulo (SBCP/SP), o PMMA já provocou deformidades e complicações em cerca de 17 mil pacientes em todo o país. A entidade orienta que os pacientes façam uma consulta em seu site para saber se o médico é ou não credenciado pela SBCP antes de realizar uma cirurgia plástica.
Para denunciar algum especialista ou estabelecimento:
Ministério Público de Pernambuco – MPPE
Rua Imperador Dom Pedro II, 473
Santo Antônio – Recife/PE
Fone: (81) 3182.7000

Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA

Praça Ministro Salgado Filho, Imbiribeira –Recife/PE

CEP: 51210 - 010

Fone: (81) 3322.4274/3301.3508/3301.3509

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Dr. Bumbum e a mãe são presos em empresarial na Barra


O Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal cassou o registro do médico
Por Rebeka Gonçalves
Na tarde de hoje, o médico Denis Cesar Barros Furtado, conhecido como Dr. Bumbum, e a mãe, Maria de Fátima Furtado, foram presos em um centro empresarial na Barra. Os dois estavam foragidos há 4 dias após a morte da bancária Lilian Calixto. Segundo a delegada Adriana Belém, da 16ª Delegacia de Polícia Civil da Barra da Tijuca, os dois estavam no escritório de um advogado, com quem negociavam a rendição. Em entrevista à imprensa, o médico se disse inocente e afirmou que intercorrências podem ocorrer com qualquer médico. 
Hoje pela manhã, o Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF) cassou o registro do médico, mas ainda cabe recurso. A decisão ainda será submetida ao Conselho Federal de Medicina (CFM).
Entenda o caso 
A bancária Lilian Calixto, de 46 anos, morreu após passar por um procedimento estético no apartamento do médico Denis Cesar Barros Furtado, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Parentes contaram que ela saiu de Cuiabá, no Mato Grosso, onde morava, para fazer um procedimento nos glúteos. 
Lilian passou por complicações e foi socorrida para o Hospital Barra D’or em estado extremamente grave, segundo a unidade de saúde. O hospital informou que fez várias tentativas para reverter o quadro de saúde da bancária, mas ela acabou falecendo na madrugada do domingo (15/07). 
Houve registro do caso na 16ª Delegacia de Polícia Civil da Barra da Tijuca, mas a investigação é sigilosa. O Tribunal de Justiça confirmou na noite de segunda (16/07) que um pedido de prisão provisória para o médico chegou ao plantão judicial para ser analisado. 
Defesa do médico
Em coletiva concedida à imprensa, na última quarta-feira (18/07), em Brasília, a advogada responsável pela defesa do médico Denis Furtado, conhecido como Dr. Bumbum, Naiara Baldanza, afirmou que o profissional “sofre de síndrome do pânico”. Segundo ela, esse é o motivo para ele ainda não ter se apresentado à Polícia Civil. 
Ainda de acordo com Naiara, o médico não permaneceu no Hospital Barra D’or, “porque o hospital não permitiu que ele ficasse no local após a morte da paciente”. Mas a unidade de saúde nega esse fato, “não houve qualquer impedimento ao acesso de qualquer profissional, familiar ou acompanhante”. 
Entretanto, na coletiva, Naiara se negou a responder uma série de questionamentos e encerrou a entrevista após 14 minutos. Entre outras coisas, a advogada não falou sobre a acusação de que seu cliente fazia procedimentos em casa, e não em um consultório; sobre as complicações apresentadas pela bancária e a morte dela; sobre a fuga do médico após a morte da paciente e seu paradeiro; se ele pretendia se entregar à polícia em Brasília ou no Rio de Janeiro e sobre as denúncias de outras clientes e ex-colegas de trabalho do Dr. Bumbum. 
Especialização
Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), o médico Denis Furtado não é especialista e realizava os procedimentos em local inadequado. Um ex-chefe de Furtado afirmou para a imprensa que, apesar de se identificar como cirurgião plástico, ele se recusava a fazer residência ou qualquer outra especialização para exercer a medicina. “Ele se formou no Rio, trabalhou como médico, mas sem nenhuma especialidade. Ou seja, só poderia trabalhar como médico generalista. Então, ele só assessorava, fazia serviços burocráticos, distribuía documentos aqui e lá. Nunca teve contato com paciente”. 
Ao analisar a conduta do médico Denis Furtado, o ex-chefe dele disse que não suspeitava que ele pudesse trabalhar de forma clandestina. Mas relembrou que ele sabia como “enganar as pessoas”. “Não é preciso ter contato com a área para saber que ele é muito eloquente, sabe articular as palavras. Então, para ele, é fácil enrolar uma pessoa levando para um apartamento e fazer um procedimento, que é claramente todo errado”. 
Histórico
O médico é alvo de um inquérito da Polícia Civil, motivado por pelo menos seis denúncias. Até ontem (18/07), o Ministério Público informava que não tinha conhecimento de denúncia contra o médico na justiça. No entanto, o órgão disse que existe a possibilidade de ele já estar respondendo judicialmente em algum processo que esteja correndo em sigilo. 
No Distrito Federal, Denis Furtado trabalhou em ao menos três lugares. Uma clínica mantida no Lago Sul, área nobre de Brasília, mas foi considerada clandestina pela Polícia Civil. Segundo um paciente, ele também atendia em uma clínica na Asa Norte. 
Além disso, ele trabalhou no Hospital das Forças Armadas (HFA), onde exercia a função de oficial médico temporário. Durante o período, o HFA não abriu nenhum procedimento administrativo ou sindicância contra ele, de acordo com a assessoria de imprensa do centro de saúde.