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terça-feira, 28 de agosto de 2018

Estudo mostra ligação entre álcool e suicídio na faixa de 25 a 44 anos


Campanha de prevenção com foco nos jovens será lançada em setembro
Um estudo feito pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) divulgado este ano em um jornal científico reforçou a ligação entre o consumo de álcool e o suicídio. Foram analisados 1,7 mil casos na cidade de São Paulo entre 2011 e 2015 a partir de exames toxicológicos e mais de 30% das vítimas apresentavam diferentes concentrações de teor alcoólico no sangue. Entre os homens essa porcentagem chegou a 34,7%. A maior parte dos analisados (49% corresponde a adultos jovens, com idade entre 25 e 44 anos. Dentro dessa faixa etária mais de 61% apresentavam álcool no sangue.
Desde 2012 a taxa de suicídio em brasileiros de 15 a 29 anos subiu quase 10% de acordo com a edição de 2010 do Mapa da Violência, feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio é a segunda causa mundial de mortes entre pessoas dessa faixa etária - mais de 90% estão ligados a distúrbios mentais.
Segundo o psiquiatra Teng Chei Tung, coordenador dos Serviços de Pronto-Socorro e Interconsultas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, sob efeito do álcool as pessoas podem apresentar diminuição da capacidade de julgamento, do senso crítico e do autocontrole, assim como tendem a adotar comportamentos agressivos. Esse efeito pode ser ainda maior entre os adolescentes.
“O cérebro do adolescente ainda está em desenvolvimento e os efeitos do álcool são mais nocivos nessa idade, com impacto ainda maior sobre a tomada de decisões e o autocontrole. Estamos falando de uma faixa etária em que o imediatismo é mais evidente e a exposição ao álcool pode ser mais perigosa quando pensamos no risco para o suicídio”, explicou.
De acordo com Tung, é possível desenvolver programas educativos sobre o consumo de drogas e álcool entre os jovens, mas é preciso lembrar que há outros fatores que também merecem atenção como o bullying e transtornos psiquiátricos, como a depressão. “É importante lembrar que um transtorno mental como a depressão pode alterar a percepção que o indivíduo tem da realidade. Por isso, os casos de suicídio não devem ser encarados como expressão do livre-arbítrio.”
Campanha digital
No próximo mês será lançada a campanha digital #SAIADASOMBRA, para contribuir para as atividades educativas da campanha global Setembro Amarelo, que tem como foco o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, celebrado no próximo dia 10. A mensagem será lançada em forma de vídeo nas redes sociais com o objetivo de atingir os mais jovens. A campanha é feita em parceria com o Centro de Valorização à Vida (CVV) e o laboratório Pfizer.
"O objetivo desta vez é focar nos adolescentes e jovens que apresentam sinais de alerta em relação à depressão e à possibilidade de cometer suicídio num prazo próximo ou mediano. Nossa intenção é alertar, trazer informação e levar as pessoas a poder identificar esses sinais e, em seguida, ajudar, seja pessoalmente ou encaminhando para um profissional adequado", disse o diretor médico da Pfizer, Eurico Correia.
Segundo ele, as pessoas que têm sinais ou sintomas depressivos têm um sofrimento inerente à doença e à condição clínica pela qual estão passando. "É importante lembrar que as pessoas que têm depressão, de alguma maneira, estão sofrendo e, para algumas delas, a saída para esse sofrimento é o suicídio. Vamos ter isso em mente e reconhecer que há mitos que envolvem a doença".
Correia ressaltou que é necessário ainda eliminar a ideia de que suicídio é uma consequência natural de uma série de situações na vida da pessoa. "Mais de 90% das pessoas que se suicidaram ou tentaram tem alguma doença envolvida. Não é questão meramente comportamental. Essa é uma das mensagens mais importantes: é uma morte evitável. Essa pessoa que tentou ou cometeu suicídio não precisava ter feito isso se a gente ouvisse, visse e desse atenção", completou.
O presidente do CVV, Robert Paris, destacou que a entidade criou um serviço via chat com o intuito de atrair jovens. Segundo ele, a adesão desse público foi rápida. "Um dado que nos chamou muito a atenção é que no atendimento em geral cerca de 5% a 10% das pessoas manifestam intenção ou planejamento para o suicídio. Parece pouco, mas se pensarmos que temos 3 milhões de contatos por ano, isso significa um número de pessoas em alto risco e que, felizmente, estão pedindo ajuda de alguma maneira".
Paris disse ainda que entre aqueles de 15 a 29 anos, a taxa dos que mostram planejamento ou intenção para suicídio é de 50%. "O jovem fala abertamente sobre isso. Ele pede ajuda e demonstra seu desespero. O problema é grave, estamos cada vez mais buscando voluntários para atender em todos os nossos meios de apoio, mas especificamente nesse. E buscamos trazer voluntários mais jovens."
Mudanças bruscas de personalidade, alterações no desempenho escolar ou no trabalho podem ser sinais de que a pessoa sofre de algum transtorno que pode levar ao suicídio. Perda de interesse por atividades que antes eram prazerosas, isolamento familiar ou social, pessimismo, perda ou ganho inesperado de peso, frequência de comentários autodepreciativos ou sobre morte, ou a doação de pertences que antes o indivíduo valorizava também são sinais que devem ser notados.
Fonte: Agência Brasil

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Eutanásia: a jovem com problemas psiquiátricos que conseguiu ajuda dos médicos para morrer


Aurelia Brouwers olha para o quadro em que anotou o dia em que seria submetida à eutanásia: 'Estou pronta para viajar', disse ela ao médico
Em janeiro, uma holandesa identificada como Aurelia Brouwers bebeu veneno fornecido por um médico e se deitou para morrer. A eutanásia - morte assistida por um médico - é legal na Holanda, e o suicídio de Brouwers foi sancionado pelo Estado. O detalhe, porém, é que não se tratava de um caso de doença terminal - como ocorre normalmente nos que envolvem pedidos de morte assistida. Aurelia foi autorizada a acabar com a própria vida devido a uma doença psiquiátrica.
"Eu tenho 29 anos e escolhi ser voluntariamente submetida à eutanásia. Escolhi isso porque tenho muitos problemas de saúde mental. Sofro de maneira insuportável e sem esperança. Cada suspiro que eu dou é uma tortura ..."
Uma equipe da rede de TV holandesa, RTL Nieuws, passou duas semanas gravando Aurelia enquanto se aproximava da data de sua morte - marcada para as 2h da tarde de sexta-feira, 26 de janeiro. Em um quadro branco na sua casa, ela riscava os dias que faltavam com uma pesada caneta preta.
A jovem passou o tempo, naquelas últimas semanas, com seus entes queridos, fazendo artesanato e andando de bicicleta em Deventer, a cidade que adorava. Também visitou o crematório - o lugar que escolheu para o próprio funeral.
A eutanásia é ilegal na maioria dos países, mas na Holanda é permitida se o médico estiver convencido de que o sofrimento do paciente é "insuportável, sem perspectiva de melhora" e se "não houver alternativa razoável na situação em que se encontra".
Estes critérios podem ser mais simples de aplicar no caso de alguém, por exemplo, com um diagnóstico terminal de câncer sem possibilidade de tratamento que esteja em grande sofrimento. E a maioria das 6.585 mortes por eutanásia na Holanda em 2017 foi justamente de pessoas com alguma grave doença física. 
Houve, no entanto, 83 casos em que o procedimento foi realizado em razão de sofrimento psiquiátrico. 
Nesses casos, houve polêmicas. Eram pessoas como Aurelia, cujas condições, segundo alguns observadores, não eram necessariamente incuráveis.
O desejo de morrer manifestado por Aurelia veio com sua longa história de doença mental.
"Quando eu tinha 12 anos, sofria de depressão. E quando fui diagnosticada pela primeira vez, me disseram que eu tinha Transtorno de Personalidade Borderline (caracterizado, por exemplo, por mudanças súbitas de humor)", diz ela. "Outros diagnósticos se seguiram - transtorno de apego reativo, depressão crônica, eu sou cronicamente suicida, tenho ansiedade, psicoses e ouço vozes."
Os médicos de Aurelia não queriam endossar seus pedidos de eutanásia. Então ela se inscreveu na Levenseindekliniek - a clínica Fim da Vida, especializada em morte assistida - na cidade de Haia, na Holanda. O local é uma espécie de último recurso para aqueles que tiveram suas candidaturas ao procedimento rejeitadas por seus próprios médicos ou psiquiatras. A clínica supervisionou 65 das 83 mortes aprovadas por razões psiquiátricas na Holanda no ano passado - ainda que apenas cerca de 10% dos pedidos com essa motivação sejam aprovados, e que o processo possa levar anos.
"Os pacientes psiquiátricos que vemos são mais jovens que os demais", diz Kit Vanmechelen, psiquiatra que avalia candidatos e realiza eutanásia, mas que não esteve diretamente envolvida na morte de Aurelia.
"Aurelia Brouwers é um exemplo desse quadro. Era uma mulher muito jovem. E isso dificulta a tomada de decisão, porque nesses casos há muita vida subtraída."
Durante suas duas últimas semanas de vida, Aurelia passou por vários momentos de angústia e automutilação.
"Eu estou presa no meu próprio corpo, na minha própria cabeça e só quero ser livre", disse ela. "Eu nunca fui feliz - não conheço o conceito de felicidade."
"Ela realmente não era tão estável durante o dia", lembra Sander Paulus, jornalista da RTL Nieuws que a acompanhou durante grande parte desse período.
"Você sentia que havia muita pressão na cabeça dela. Ela não se expressava muito bem - exceto quando o assunto era a eutanásia. Ela era muito clara nesse ponto."
Mas ter clareza significa que alguém tem a capacidade mental de escolher a morte no lugar da vida? De acordo com a lei holandesa, um médico deve estar convencido de que o pedido de eutanásia do paciente é "voluntário e suficientemente ponderado".
Aurelia Brouwers argumentou que estava habilitada para tomar a decisão. Mas um desejo de morte não poderia ter sido um sintoma de sua doença psiquiátrica?
"Eu acho que você nunca pode ter 100% de certeza disso", diz Kit Vanmechelen. "Mas (antes de aprovar um pedido de eutanásia) você deve ter feito tudo para ajudar o paciente a diminuir os sintomas da patologia que ele tem", observa, acrescentando que, "em transtornos de personalidade, um desejo de morte não é incomum". "Mas que, se ele é constante, e o paciente passou por tratamentos de transtorno de personalidade, é um desejo semelhante ao manifestado por um paciente com câncer que diz: 'Eu não quero ir até o fim (da doença)'."
Essa visão não é universalmente aceita por psiquiatras na Holanda.
"Como eu poderia saber - como alguém poderia saber - que seu desejo de morte não era um sinal de sua doença psiquiátrica? O fato de alguém poder expressá-lo de forma racional não significa que não seja um sinal da doença", diz o psiquiatra holandês Frank Koerselman, um dos principais críticos declarados, no país, à eutanásia em casos de doença mental.
Ele argumenta que psiquiatras nunca deveriam pactuar com clientes que afirmam que querem morrer.
"É possível não ser contaminado pela falta de esperança que eles manifestam. Esses pacientes perdem a esperança, mas você pode ficar ao lado deles e dar-lhes esperança. Você pode deixá-los saber que você nunca vai desistir deles", diz ele.
A morte de Aurelia Brouwers provocou um grande debate na Holanda e ganhou manchetes em vários países. Ninguém sugeriu que o procedimento foi ilegal, mas muitos questionaram se foi para esse tipo de caso que a legislação de 2002 permitindo a eutanásia foi promulgada.
As opiniões dividem-se também sobre se havia uma alternativa aceitável no caso dela. Kit Vanmechelen, por exemplo, argumenta que quando as pessoas solicitam a eutanásia por motivos psiquiátricos, em alguns casos elas se matam se não são atendidas. Em sua opinião, elas devem ser consideradas pessoas com doenças terminais.
"Eu tratei pacientes que eu sabia que cometeriam suicídio", diz a especialista. "Eu sabia. Eles me disseram, eu senti, e pensei, 'eu não posso te ajudar'. Então, ter a eutanásia como alternativa me deixa muito grata por termos uma lei. Os que eu sei que cometerão suicídio são terminais, na minha opinião, e eu não quero abandonar meus pacientes que não conseguem seguir em frente com suas vidas. Isso me deixa disposta a realizar a eutanásia ".
"Eu simplesmente discordo", diz Frank Koerselman. "Na minha carreira inteira trabalhei com pacientes suicidas - nenhum deles foi terminal. Claro que tive pacientes que cometeram suicídio, mas, na verdade, esses sempre foram casos que você não esperava."
No documentário da RTL, Aurelia Brouwers conta que tentou se suicidar "cerca de 20 vezes". "Fiquei em estado crítico algumas vezes, mas meu coração e pulmões eram muito saudáveis. Os médicos diziam: 'É um milagre, ela conseguiu'."
E sobreviver a uma tentativa de suicídio não é incomum - há casos registrados todos os dias. 
Monique Arend, como Aurelia Brouwers, foi diagnosticada com doenças psiquiátricas, incluindo Transtorno da Personalidade Borderline. Pessoas com essa condição se automutilam, têm sentimentos intensos de raiva, acham difícil manter relacionamentos e são emocionalmente instáveis. Monique passou por várias tentativas de pôr um fim à sua vida. 
"Isso (tentar se matar) acontecia em vários lugares - em casa, na floresta ... Mas eu sou muito grata por ainda estar viva", diz ela.
Monique sobreviveu a um episódio brutal de violência sexual, e a terríveis acontecimentos psiquiátricos. Ela pensou muito sobre a eutanásia.
"Eu pensava que era um grande problema para todo mundo, e simplesmente não queria ser esse fardo, e a dor se tornou insuportável. Então preenchi os formulários para a eutanásia. Mas nunca os apresentei."
Monique não apresentou esses documentos porque encontrou ajuda. No início de sua doença, foi aconselhada por um especialista a não falar sobre o abuso que havia sofrido - foi quando ela começou a machucar a si mesma. Depois, entretanto, ela encontrou uma nova terapeuta especializada em trauma.
"Ela me disse que eu não sou louca, mas que estou traumatizada - isso é uma grande diferença. Nós trabalhamos duro juntas - foi muito doloroso. Mas nós atravessamos esse período, e, desde então, estou em uma viagem de recuperação, diz Monique.
Ela escreveu um livro sobre suas experiências e tem alguns conselhos para pessoas que lutam contra pensamentos suicidas ou consideram fazer a eutanásia na Holanda.
"É pesado, duro e difícil", diz ela. "Mas não perca a esperança. Procure pessoas que possam lhe apoiar. Vocês passaram por muita coisa e são muito fortes por terem atravessado isso - ainda há espaço para vocês neste planeta."
O desconforto em torno da eutanásia para pacientes psiquiátricos está ligada à percepção de que todas as opções podem não ter sido exploradas nesses casos.
Na clínica de morte assistida, em Haia, mais da metade dos que vão em busca de eutanásia por motivos psiquiátricos são rejeitados por não terem tentado todos os tratamentos disponíveis.
"Eu tive um paciente que fez muitos tratamentos e estava convencido de que nada mais poderia ajudá-lo. Mas ele nunca havia ido a uma clínica em busca de ajuda para abuso de remédios controlados e álcool", diz Kit Vanmechelen. "Então eu disse a ele: 'Durante um semestre você deve fazer um esforço real para diminuir seu uso dessas substâncias, e se depois o seu desejo de morte permanecer, volte e nós conversamos'."
Mas Vanmechelen acredita que, depois que um paciente passou por vários tratamentos para o mesmo diagnóstico, é razoável dizer que basta.
Foi isso que Aurelia Brouwers argumentou também. Antes da eutanásia, ela havia sido tratada por sua doença - fazia terapia e tomava remédios.
"Precisamos nos livrar do tabu de que você deve permanecer sempre em tratamento, até o amargo fim", disse ela. "Para pessoas como eu nem sempre há uma solução - você não pode continuar tomando remédio, nem rezar indefinidamente... Em algum momento você simplesmente tem que parar."
Mas há pessoas que podem - e conseguem - viver por décadas com distúrbios psiquiátricos.
"Eles (os distúrbios) não são tratáveis ​​como uma infecção, eles são como diabetes - você tem a doença, você terá o resto da sua vida, mas nós, como médicos, vamos tornar possível para você viver com ela", argumenta Frank Koerselman.
"Como as pessoas com diabetes, os pacientes psiquiátricos também são tratados durante anos, mas isso não é um argumento para interromper o tratamento."
"É sabido que depois dos 40 anos as coisas podem ser muito melhores para pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline - seus sintomas podem se tornar muito mais leves".
Nos dias que antecederam a eutanásia ela também visitou o crematório que escolheu para o próprio funeral
Aurelia Brouwers morreu mais de uma década antes de chegar aos 40 anos. Em seu último dia na Terra, ela foi visitada por seu cantor favorito, Marco Borsato. 
Naquela noite, jantou com suas amigas - com risadas e um brinde. Na manhã de 26 de janeiro, ela postou pela última vez nas redes sociais: "Estou me preparando para a minha viagem agora. Muito obrigado por tudo. Eu não estou mais disponível a partir deste momento."
Os entes queridos de Aurelia Brouwers se reuniram em seu quarto. Dois médicos estavam presentes.
"Eu tenho certeza de que no momento em que eu dou o veneno - porque é o que você faz, você dá veneno - eu tenho certeza de que é a única coisa que o paciente quer naquele momento e que ele desejou isso por um longo período, caso contrário, não seria capaz de fazê-lo", diz Kit Vanmechelen.
"No primeiro encontro com um paciente, eu digo a ele, esta será a última pergunta que vou lhe fazer: 'Você tem certeza que quer isso? E se houver uma pequena dúvida, vamos parar, voltar e falar sobre isso novamente.'"
E isso já aconteceu com ela?
"Não. Isso não acontece."
No caso de Aurelia, os médicos não administraram as drogas que a mataram - ela mesma bebeu a medicação.
No documentário da RTL Nieuws, ela tem uma última conversa com Sander Paulus, enquanto segura o pequeno frasco de remédio lacrado.
"Esta é a bebida", diz ela. "Eu sei que o gosto é amargo, então vou engolir rápido. E então vou dormir."
Sander Paulus pergunta se ela tem alguma dúvida.
"Sem dúvidas", diz Aurelia. "Estou pronta - pronta para viajar."
"Espero que você encontre o que está procurando", diz ele.
"Com certeza vou encontrar", responde Aurelia.
Aurelia Brouwers dá as costas a Sander Paulus e sobe as escadas. Logo depois das 14h da sexta-feira, 26 de janeiro de 2018.
Fonte: BBC Brasil

domingo, 5 de agosto de 2018

Por que a demência afeta mais mulheres que homens



Por Laura Oliver/BBC
Diagnosticada com mal de Alzheimer em 2015, Brenda Whittle, de 75 anos, ainda gosta de quebra-cabeças, costura e dança. Novas atividades não lhe atraem muito, mas participar de testes clínicos de medicamentos para tratar a doença é uma exceção. Ela está tão acostumada com tomografias que chega a cochilar dentro dos aparelhos. 
Brenda é uma entre as mais de 50 milhões de pessoas no mundo inteiro que vivem com demência - uma categoria que engloba várias doenças e transtornos que afetam a memória e o processamento do cérebro, incluindo Alzheimer. Esse número está aumentando rapidamente. Globalmente, especialistas estimam que 75 milhões de pessoas viverão com demência em 2030, e 131,5 milhões em 2050. A maioria dessas pessoas são mulheres.
Na Austrália, quase dois terços das doenças relacionadas a demência vitimam mulheres; nos EUA, dois terços das pessoas que vivem com a doença são mulheres. Em alguns casos, a demência supera "doenças femininas" mais conhecidas: mulheres americanas com mais de 60 anos têm duas vezes mais chances de desenvolver Alzheimer do que câncer de mama (câncer de mama continua sendo a principal causa de morte entre mulheres britânicas com idade entre 35 e 49 anos).
E na Inglaterra, assim como na Austrália, a demência se tornou a principal causa de morte entre as mulheres, derrubando as doenças cardíacas do topo da lista.
No Brasil, o número de pessoas com Alzheimer ultrapassa 1,2 milhão, segundo a Associação Brasileira de Alzheimer. Mas não há dados mais específicos sobre as mulheres. 
"Isso não pode ser sustentado por nenhum sistema de saúde - é demais em termos de números", diz Antonella Santuccione-Chadha, médica especialista em Alzheimer e baseada na Suíça. "E conforme mais e mais mulheres sofrem a doença, precisamos investigar as diferenças nas especificidades entre homens e mulheres". 
Boa parte da diferença de gênero está ligada a um dos maiores fatores de risco da demência: idade. Quanto mais velho você é, maior a propensão de desenvolver Alzheimer. Mulheres tipicamente vivem mais que os homens, então mais mulheres sofrem demência.
Mas pesquisas recentes apontam que seria errado assumir que Alzheimer é uma doença inevitável. Resultados de dois grandes estudos de Funções Cognitivas e Envelhecimento (CFAS, na sigla em inglês) sugerem que, ao longo dos últimos 20 anos, novos casos de demência no Reino Unido caíram em 20% - principalmente por causa da queda na incidência da doença entre homens com mais de 65 anos. 
Especialistas dizem que pode ser por causa das campanhas de saúde pública sobre doenças cardíacas e fumo. Ambos são fatores de risco para o Alzheimer. Mas porque os homens tendem a ter doenças do coração mais cedo e fumam mais que as mulheres, essas campanhas também podem ajudar a diminuir esses fatores de risco mais entre os homens do que entre as mulheres. 
Enquanto isso, outros fatores de risco da doença afetam mais as mulheres que os homens. Por exemplo, mais mulheres sofrem depressão - e a condição foi ligada ao acometimento de Alzheimer. Outros fatores de risco afetam apenas as mulheres, como menopausa cirúrgica e complicações de gravidez como a pré-eclâmpsia, ambos problemas ligados ao declínio cognitivo na fase mais avançada da vida.
Tarefas sociais como cuidar do outro também podem aumentar a chance de desenvolver demência. Algumas pesquisas mostram que ser uma cuidadora em si é um risco de sofrer Alzheimer, diz Annemarie Schumacher, uma psicóloga. No Reino Unido, entre 60 e 70% das pessoas que cuidam de pessoas com demência sem ser pagas são mulheres.
"A prevenção específica de gênero pode começar com ter mais informações sobre fatores de risco específicos entre as mulheres", diz Maria Teresa Ferretti, uma pesquisadora biomédica especializada na doença de Alzheimer da Universidade de Zurique.
Essa ideia está ganhando força. O grupo Projeto Cérebro das Mulheres (WBP, na sigla em inglês), cofundado por Santuccione-Chadha, Ferretti e Schumacher além da química Gautam Maitra, recentemente publicou um relatório analisando uma década de literatura científica sobre Alzheimer, que revisou dados existentes e pedindo a cientistas que estratificassem os resultados por sexo pela primeira vez.
"As diferenças mais óbvias que tiramos da literatura estão na exposição e progressão de sintomas cognitivos e psiquiátricos entre homens e mulheres com doença de Alzheimer. Com base nesses novos estudos, podemos desenhar novas hipóteses e descobrir novas formas de melhorar tratamentos para pacientes", diz Ferretti.
Atualmente, por exemplo, o mal de Alzheimer é detectado na busca por duas proteínas tóxicas que ficam acumuladas no cérebro. Evidências sugerem que não há diferença nos níveis dessas proteínas, ou "biomarcadores" (indicadores mensuráveis da severidade ou da presença de algum estado de doença), entre homens e mulheres com Alzheimer. Mas as mulheres apresentam maior declínio cognitivo.
Como resultado, os biomarcadores "podem ter um valor previsível diferente em homens e mulheres", diz Ferretti: "nós talvez tenhamos que fazer um ajustamento na representação visual de biomarcadores bioquímicos e neuropsicológicos em homens e mulheres, ou encontrar biomarcadores específicos para cada gênero".
Outra questão para os pesquisadores é por que a doença avança mais rápido nas mulheres do que nos homens após o diagnóstico. Uma linha de pensamento sugere que o estrogênio protege o cérebro das mulheres quando elas são mais jovens, mas que esses benefícios acabam, assim como o estrogênio, com uma certa idade.
Outra pesquisa sugere que as mulheres desempenham melhor nos testes iniciais usados, o que pode levar a erros de diagnóstico na etapa inicial, o que também pode levar médicos a subestimar a severidade da doença. Se esse for o caso, exames de diagnóstico precisarão ser mudados para refletir as diferenças neuropsicológicas de homens e mulheres.
Outro desafio tem sido a maneira como testes clínicos para os medicamentos de Alzheimer são feitos. Caros e longos, eles tendem a usar tanto homens quanto mulheres, apesar de a doença afetar mais mulheres que homens.
Para outros problemas, como depressão e esclerose múltipla, a "prevalência é geralmente refletida", diz Santuccione-Chadha. "Se mais mulheres são afetadas por essas doenças, mais mulheres geralmente são incluídas nos testes". Essa estratégia parece ter funcionado: "Temos vistos medicamentos bem-sucedidos nas áreas dessas doenças", diz ela. Já no caso dos medicamentos para Alzheimer, a maioria dos testes falhou na última década.
Comparada a outras doenças, a pesquisa sobre demência continua a ter menos fundos que outras. Historicamente, no Reino Unido, 8 centavos de libra são gastos em pesquisas de novos tratamentos para demência para cada 10 libras (R$ 45) gastas no tratamento de pessoas com a doença, segundo uma pesquisa da Universidade de Oxford. Já no caso do câncer, gasta-se 1,08 libra em pesquisas para cada 10 libras em tratamentos.
A discrepância de fundos é repetida em outros lugares: em 2017, nos EUA, dados dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH na sigla em inglês) sugerem que cerca de U$ 3,03 bilhões (R$ 11 bi) foram gastos em pesquisas sobre o Alzheimer e doenças relacionadas, enquanto U$ 9,87 bilhões (R$ 34 bi) foram destinados a pesquisas sobre câncer. 
Os investimentos em pesquisa, entretanto, estão aumentando, graças a iniciativas de impacto como a recente doação de U$ 50 milhões (R$ 185 milhões) feita por Bill Gates. 
Mas ainda "há muito o que fazer para acompanhar", diz Hilary Evans, CEO do centro de pesquisa sobre Alzheimer do Reino Unido. "Nós devemos ver mudanças significativas de investimentos para garantir que tenhamos os mesmos avanços para pessoas com demência do que os que vemos para câncer e doenças cardíacas nos últimos anos".
Quanto a Brenda, ela consegue se virar com a ajuda de um rastreador com GPS comprado após uma viagem no trem errado, e com post-its com lembretes grudados pela casa pelo seu marido, Stephen. Ambos dizem que planejam continuar envolvidos em discussões e pesquisas sobre a doença.
O envolvimento de casais como Brenda e Stephen é essencial. Pesquisas feitas levando em consideração o gênero já estão trazendo novas possibilidades para como detectamos, tratamos e cuidamos do número crescente de pessoas vivendo com a doença. Detectar qualquer diferença pode ajudar a resolver um dos maiores mistérios medicinais do nosso tempo - uma chance que seria uma grande tolice desperdiçar, segundo especialistas.
*Esta matéria faz parte da Health Gap, uma série especial da BBC sobre como homens e mulheres experienciam o sistema de saúde - e sua própria saúde - de maneiras distintas. 
Matéria original no site da BBC Brasil, disponível aqui.

sábado, 21 de julho de 2018

Como a depressão na gravidez afeta a saúde e o comportamento dos bebês, segundo pesquisa inédita


Segundo pesquisa do King's College London, bebês de mulheres que tiveram depressão durante a gravidez são mais sensíveis ao estresse
Por Nathalia Passarinho/BBC 
A gravidez costuma ser associada, no imaginário social, a um período de felicidade. O mar de fotos da "doce espera" que costuma inundar as redes sociais reforça essa ideia. Mas a cobrança pelo estado de alegria pode acabar silenciando mulheres que, na verdade, estão lutando contra a depressão. E o sofrimento durante a gestação afeta tanto as mães quanto os bebês, fazendo com que nasçam mais sensíveis ao estresse. 
É o que mostra uma pesquisa inédita a que a BBC News Brasil teve acesso, do Instituto de Psiquiatria e Neurociência do King's College London, no Reino Unido. O estudo completo foi publicado nesta sexta (20) na revista científica Psychoneuroendocrinology. 
Os pesquisadores acompanharam 106 mulheres grávidas a partir da 25ª semana de gestação, sendo que 49 delas foram diagnosticadas com depressão e não tomaram medicamento para tratar a doença.
Elas tiveram amostras de sangue e saliva coletadas, para verificar se apresentavam sintomas clínicos da doença, como inflamações e maior produção de cortisol - hormônio associado à resposta ao estresse. 
Após os partos, os cientistas monitoraram tanto o comportamento dos bebês quanto a liberação de cortisol. Os testes foram feitos aos seis dias de vida, aos oito meses e aos 12 meses. 
A primeira descoberta foi que o período de gestação das mulheres com depressão é mais curto. Do grupo observado, as grávidas com depressão tiveram os filhos, em média, oito dias antes das que não tinham a doença. 
Mas o que mais impressionou foi o efeito do sofrimento neonatal nos bebês. 
Bebês mais sensíveis 
Os bebês de mães que tiveram depressão durante a gravidez se mostraram mais hiperativos, chorosos e produziram cortisol em circunstâncias que as demais crianças encararam com normalidade. 
Essa diferença no comportamento foi verificada até em bebês com menos de uma semana de vida. 
"Em termos de comportamento, no sexto dia após o nascimento, os bebês com mães que tinham depressão eram mais hiperativos e reativos a som, luz e frio. E era mais difícil consolá-los e acalmá-los", disse à BBC News Brasil o professor do King's College London Carmine Pariante, um dos autores da pesquisa. 
Aos dois meses, os bebês tiveram as salivas coletadas para medir o nível de cortisol. Quando eles completaram um ano e tomaram a primeira vacina, pesquisadores novamente coletaram saliva, para comparar com a amostra anterior. 
Descobriram que as crianças de mulheres que tiveram depressão neonatal liberaram muito mais cortisol que as demais após a vacina. Ou seja, esses bebês se estressaram muito mais que os outros diante da experiência da primeira injeção.
"Bebês nascidos de mães saudáveis não revelavam mudança no cortisol quando recebiam a injeção. Não era estressante para eles. Mas os bebês nascidos de mães com depressão produziam cortisol ao tomar a injeção, o que demonstra que aquela situação era estressante para eles e não para os outros", diz Pariante. 
O cortisol é um hormônio liberado em situações percebidas pelo corpo como de ameaça ou grande desconforto. 
"A liberação do cortisol em si não é ruim, porque ele é uma resposta do corpo ao estresse. Ele dá energia aos músculos e eleva a concentração do cérebro", explica o professor. 
"Mas o resultado da pesquisa mostra que os bebês de mães que tiveram depressão na gravidez são particularmente sensíveis ao estresse. Uma situação que seria normal para outros bebês pode ser difícil para esses bebês, e eles reagem ativando a resposta ao estresse."
Risco de desenvolver problemas psicológicos 
Segundo o professor, os sinais de estresse presentes no sangue da gestante, como a liberação de cortisol, cruzam a placenta e passam para o sangue do bebê, influenciando no sistema de resposta da criança a situações desconfortáveis. 
"O bebê identifica o ambiente de vida da mãe como estressante e organiza a sua própria resposta ao estresse com base nisso", afirma o pesquisador.
O que preocupa na sensibilidade maior ao estresse é o risco de essas crianças desenvolverem problemas psicológicos ou depressão no futuro, ao lidarem com problemas cotidianos ou situações de sofrimento, como perda de familiares, bullying, e frustrações acadêmicas e profissionais. 
"Se você imagina a situação daqui a 10 anos, esses bebês, quando forem crianças ou adolescentes, podem ser mais sensíveis ao ambiente externo", avalia Pariante. 
"E, se alguma circunstância trágica ocorrer ou se eles se tornarem alvo de bullying, pode ser que sejam mais sensíveis a essas mudanças no ambiente e desenvolvam um problema de saúde."
Tratamento
De acordo com o professor de psiquiatria, pelo menos uma em 10 mulheres grávidas sofrem de depressão. Ele afirma que a principal mensagem da pesquisa do King's College London, financiada pelo NIHR Maudsley Biomedical Research Centre, é que é importante que as gestantes busquem tratamento. 
Para o pesquisador, os tabus sobre depressão e a romantização da gravidez dificultam a procura por ajuda. 
"Existe uma pressão da sociedade de que a gravidez deve ser um momento de felicidade. Mas a verdade é que muitas gestantes estão deprimidas e acabam não buscando ajuda", diz. 
"Esse artigo mostra que a depressão deve ser reconhecida e tratada, não apenas pelo bem da mãe, mas também pela saúde do bebê, para que se torne uma criança e adulto mais saudável."
O pesquisador reconhece, porém, que faltam estudos que apontem com maior segurança qual o melhor tratamento contra a depressão durante a gestação. Algumas pesquisas indicam que antidepressivos podem alterar o comportamento dos bebês, mas Pariante ressalva que é difícil saber ao certo se o efeito é decorrente do remédio ou da depressão em si. 
"Muitas das consequências inicialmente associadas aos antidepressivos são hoje explicados pela depressão em si ou pelo fato de que as algumas mulheres deprimidas não fazem o pré-natal corretamente, podem estar bebendo, fumando, ou tomando mais medicamentos vendidos em farmácia sem prescrição médica", afirma. 
Ele destaca que tratamentos não medicamentosos também podem, dependendo do caso, ajudar no combate à depressão durante a gestação.
"Para casos mais graves, antidepressivos são indicados. Mas há tratamentos psicológicos e intervenções nutricionais que podem trazer benefícios, como suplemento de Ômega 3 para mulheres com depressão", menciona. 
"A decisão sobre o tratamento tem que ser bem informada, para que mãe e médico cheguem à alternativa considerada mais adequada."

Matéria original no site da BBC Brasil, disponível aqui.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Estímulo cerebral pode tratar depressão e compulsão por comida



A estimulação cerebral profunda não é um tratamento novo e ainda é muito controverso. Ela surgiu em 1930, quando o neurocirurgião Wilder Penfield desenvolveu a técnica para tratar a epilepsia. Durante o procedimento, era realizado o estímulo de diferentes partes do cérebro com uma sonda elétrica. A ideia era manter os pacientes acordados durante o processo, para que os médicos pudessem entender o efeito do estímulo, identificar o problema e destruir a área problemática.
No mesmo período, o neurologista Antonio Egas Moniz trabalhava na retirada de pequenas partes do lobo frontal do cérebro de seus pacientes, área vital para o planejamento e a personalidade da pessoa. A retirada e observação dessas partes do cérebro foram essenciais para o estudo e a prática da estimulação cerebral, permitindo que neurologistas compreendessem que áreas do cérebro podem ser beneficiadas com os eletrodos. O procedimento foi considerado bem sucedido em vários casos e lhe rendeu um Prêmio Nobel em 1949.
Em 2002, a estimulação cerebral foi aprovada para o tratamento do mal de parkinson e já foi realizada em mais de 40 mil pacientes. A aprovação desse procedimento para doentes com parkinson abriu precedente para a utilização da técnica em pessoas com outros distúrbios, como a depressão severa. Neste caso, a região estimulada é o núcleo accumbens, área de recompensa do cérebro que é responsável por processar o prazer. O accumbens está ligado à depressão porque pessoas depressivas têm um interesse reduzido pelo prazer. 
Thomas Munte, neurologista da Universidade de Lubeck, na Alemanha, tem usado a técnica em pacientes com depressão severa e alguns com obesidade, que não têm resultados com outros tratamentos. Na paciente Anna, a estimulação ajudou a conter a depressão consideravelmente e a fez perder quase 50% a mais de peso por mês (2,8 kg), do que ela havia perdido após a cirurgia bariátrica. O neurologista afirma que o alvo inicial era tratar a depressão e que a perda de peso era o segundo objetivo a ser atingido. 
Munte explica que algumas pessoas são obesas devido à uma alteração no sistema de recompensa do cérebro. Segundo o especialista, existem obesos que apresentam diferentes padrões cerebrais quando estão diante de imagens de comidas gostosas em relação a pessoas magras. A teoria é que o núcleo accumbens leva pessoas viciadas ao seu objeto de desejo, podendo ser comida, álcool ou drogas. 
O método utilizado para impedir uma área do cérebro de realizar sua função ainda é uma teoria não comprovada, porém ganha força graças a um famoso estudo com ratos feito em 1950. "Às vezes, na medicina, você começa a fazer (procedimentos) antes de sequer saber exatamente como funciona", afirma Munte. No caso do mal de Parkinson, a estimulação cerebral profunda provou ter um impacto positivo muito maior na qualidade de vida do que outros tratamentos. Talvez, em breve, seja possível comprovar os impactos positivos no tratamento da depressão e até obesidade.
Atualmente, existem 650 milhões de adultos e 340 milhões de crianças e adolescentes atualmente considerados obesos no mundo. A obesidade contribui para a morte de cerca de 2,8 milhões de pessoas por ano em todo o mundo.
Contudo, Munte ressalta que a estimulação cerebral não deve ser aplicada como tratamento generalizado para a obesidade. Essa técnica deve ser o último recurso a ser utilizado, uma vez que trata-se de um procedimento caro e invasivo. Ela só é indicada em pacientes obesos com tendências aditivas (vício) em relação à comida. No caso de Anna, ela tinha uma dupla indicação para a realização da estimulação cerebral profunda, pois tinha depressão severa não solucionada com uso de antidepressivos e tendências aditivas em relação a comida, diagnosticadas a partir de vários questionários.
Com o uso mais frequente de medicamentos como antipsicóticos e antidepressivos, o uso dessas técnicas invasivas e irreversíveis foi reduzido, no entanto a contribuição trazida com o estímulo dessas áreas cerebrais foi importante para o avanço da estimulação cerebral. Embora não possa ser aplicado na maioria dos pacientes, os resultados positivos da utilização do método demonstram que, nos casos mais severos, esse tipo de tratamento pode ser a única saída para salvar vidas.
Fonte: BBC Future