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sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Abusos contra pacientes psiquiátricos se espalham pelo Brasil com ajuda de verbas públicas



Numa clínica de recuperação para dependentes de drogas no Rio Grande do Norte, os pacientes eram obrigados a trabalhar na reforma da casa da proprietária. 
Em Minas Gerais, internos de uma comunidade terapêutica de viés evangélico tinham de frequentar cultos – e um deles teve rasgada uma imagem de Nossa Senhora Aparecida que levava consigo. 
No Mato Grosso, uma instituição mantinha uma transexual numa comunidade só para homens. 
Os casos são exemplos de violações de direitos humanos citadas no Relatório da Inspeção Nacional em Comunidades Terapêuticas. Divulgado em junho, o documento foi feito pelo Conselho Federal de Psicologia, pelo Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura e pela Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão.
Em 170 páginas, o relatório detalha as condições de 28 comunidades terapêuticas de onze Estados e do Distrito Federal. Sua principal constatação: as instituições vêm atuando como minimanicômios, mantendo os pacientes presos - e muitas vezes com a ajuda de verbas públicas. 
As práticas violam a legislação brasileira. A Lei 10.216 de 2001, conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica, veta a internação de pessoas com transtornos mentais em instituições de caráter asilar, onde os pacientes sejam privados de liberdade, não recebam assistência médica ou psicológica e sofram castigos e abusos. 
Porém, o relatório identificou várias instituições onde os pacientes são mantidos isolados, incomunicáveis e com restrição de visitas, têm documentos ou dinheiro retidos e não podem se comunicar com privacidade. 
Há no Brasil cerca de duas mil comunidades terapêuticas. Apesar da pequena amostragem abordada pelo relatório, especialistas ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que os problemas encontrados no relatório são regra, e não exceção. 
"É o modelo de funcionamento no qual se baseiam essas instituições que propiciam as violações denunciadas", diz Lúcio Costa, perito do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura e um dos envolvidos no estudo. 
A questão do caráter asilar está longe de ser a única violação encontrada. Ao realizarem visitas de surpresa, os cerca de 100 profissionais envolvidos na inspeção detectaram falta de documentos, menores vivendo com adultos, internação de idosos, desrespeito à diversidade sexual, aplicação de castigos, agressões físicas e falta de higiene, entre outras irregularidades. 
E a legislação não foi seguida mesmo nos poucos casos para os quais a lei prevê internações - quando feitas com laudo médico e notificação ao Ministério Público. Só duas das 28 comunidades visitadas tinham o documento assinado por um médico. 
As inspeções identificaram ainda internações que, a princípio, ocorrem de forma voluntária, mas que viram involuntárias com o passar do tempo. Normalmente, o paciente chega à comunidade por vontade própria, ou ao menos concordando com a internação. 
Mas, quando o período estipulado para o suposto tratamento chega ao fim, a clínica torna a saída quase impossível. 
"A laborterapia (tratamento de viciados) era, em praticamente a totalidade dos casos, simplesmente exploração de mão de obra. Os internos eram os responsáveis pela manutenção dos estabelecimentos sem receber nada em troca. Apenas substituíam trabalhadores pagos", diz Lúcio Costa. 
A ONG Conectas pediu em 16 de julho uma audiência na Comissão Interamericana de Direitos Humanos para tratar do assunto. Caso o pedido seja atendido, o Brasil terá de se explicar sobre as denúncias.
Falta de transparência
"As comunidades terapêuticas ainda são uma caixa-preta, com maus-tratos e situações análogas à tortura. É possível que tenhamos um novo sistema manicomial, sem nenhuma fiscalização, em vigência no Brasil", diz Henrique Apolinário, assessor do programa de violência institucional da Conectas. Ele espera que em setembro haja uma resposta sobre o pedido de audiência. 
Em outubro de 1999, Damião Ximenes Lopes foi espancado até a morte em uma clínica psiquiátrica de Sobral, no Ceará. Sete anos depois, o Brasil foi condenado na Corte Interamericana de Direitos Humanos pelo caso. 
Para Lúcio Costa, "as comunidades terapêuticas visam tão somente à segregação, sem qualquer consideração pela saúde do indivíduo. E têm, evidentemente, a intenção de lucrar". 
O perito diz que dependentes químicos e doentes mentais devem receber tratamento ambulatorial, e não serem trancafiados e apartados da sociedade. 
Dezoito das 28 comunidades inspecionadas disseram receber algum tipo de financiamento público, vindo de várias esferas de governo. Muitas acessam os recursos por meio de políticas sobre drogas.
O maior financiador das comunidades é o Ministério da Justiça. Em abril, o órgão anunciou que o governo destinaria R$ 87 milhões para comunidades terapêuticas. Os recursos vêm também dos ministérios da Saúde e do Desenvolvimento Social. 
"Seguimos recorrendo contra o financiamento público das comunidades. Em 2015, uma ação civil pública impediu que isso continuasse", diz Deborah Duprat, procuradora federal dos direitos do cidadão. 
Ela também esteve pessoalmente em algumas das comunidades inspecionadas, e diz que os estabelecimentos atuam "declaradamente fora da política de saúde mental que o Brasil adotou com a Lei da Reforma Psiquiátrica". 
A liminar a que Duprat se refere proibiu o repasse de dinheiro público às comunidades, mas foi derrubada no primeiro semestre deste ano. 
Para Lúcio Costa, cabe principalmente aos ministérios públicos estaduais e aos conselhos regionais de medicina a tarefa de fiscalizar as comunidades. 
A legislação exige a presença de um médico em comunidades onde há a administração de medicamentos, medida descumprida em quase todos os locais visitados. 
Em uma comunidade no Rio Grande do Norte, uma paciente se medicava por conta própria, quanto bem entendia. 
Questionado sobre seu apoio às comunidades, o Ministério da Saúde sugeriu, por meio de sua assessoria de imprensa, que a BBC News Brasil procurasse o Ministério da Justiça, já que o órgão é o maior financiador da modalidade. 
Por sua vez, o Ministério da Justiça argumentou, também via assessoria, que "há no Brasil duas mil instituições que podem ser categorizadas como comunidades terapêuticas. Dessas, 28 foram inspecionadas, sendo que oito mantêm contratos celebrados com a Senad/MJ, todas em fase de encerramento". A nota diz também que o relatório "não apresenta de forma detalhada quais são os problemas, fazendo uma análise generalizada dos dados". 
"O fato de o Ministério da Justiça dizer que não damos detalhes só mostra como aqueles que deveriam ter lido o relatório não o fizeram", diz Costa. 
O perito diz que várias inspeções no passado já haviam detectado as mesmas violações. 
Procurada pela BBC News Brasil, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) se limitou a dizer, também por meio de nota, que "entre suas atribuições não está a fiscalização deste tipo de serviço", e "como não foi convidada a participar da visita, não pode opinar sobre o relatório". 
Fonte: BBC Brasil

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Especialista esclarece os riscos do uso dos anabolizantes



Por Rebeka Gonçalves
Mesmo sendo um assunto já muito discutido, o uso de anabolizantes só cresce no Brasil. O levantamento feito pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), instituição ligada à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mostra que 1,4% dos estudantes do país já colocou a saúde em risco para entrar em forma. 
Os homens são maioria no consumo clandestino, mas o conceito de beleza atual, que exige das mulheres mais massa muscular, também aproxima o sexo feminino do perigo. Para esclarecer todos os perigos do uso dessa droga, o Blog Saúde e Bem Estar conversou com a clínica geral, Jaqueline Souza. 
SBE: Quais os fatores de risco para uma pessoa que faz uso de anabolizantes? 
Jaqueline Souza: Em caso do uso por homens, acontece o processo no qual denominamos de ginecomastia, que é o crescimento de seios irreversíveis, mau odor durante a prática esportiva, o aparecimento exacerbado de espinhas, aumento do nível de estresse e agressividade, além de desencadear câncer hepático. Também pode causar impotência, redução de esperma e calvície. 
Em mulheres, devido ao principal hormônio utilizado ser a testosterona, acarreta engrossamento da voz, surgimento de pelos, diminuição dos seios, além da fertilidade comprometida, o infarto e o acidente vascular cerebral (AVC). 
Em adolescentes, o aceleramento da função das epífises ósseas, que são separações que acontecem de forma natural entre os ossos da mão e do pé, que se configuram em período de estirão geral do crescimento, mas quando se usa o anabolizante de forma errada, o adolescente acelera esse processo e esse crescimento vai ser diminuído. Então, um jovem que ainda ia crescer em dois ou três anos, não crescerá, porque essas epífises se juntam mais rapidamente. 
SBE: Pode causar dependência? 
Jaqueline Souza: Sim, não só relacionada ao corpo. A pessoa pode ficar mais agressiva, mais irritada, além da dependência mental. Os ganhos de massa muscular, de potência de treino, de vigor físico, todos esses benefícios dificulta a retirada do uso do anabolizante e faz com que a pessoa fique em abstinência, logo essa retirada tem que ser feita de uma maneira cautelosa, com a ajuda de um profissional médico, se possível, já que a carga de hormônio desse indivíduo está muito alta em comparação as pessoas que não utilizam essas substâncias. 
SBE: O anabolizante pode matar?
Jaqueline Souza: Tem que ficar atento, principalmente para os sintomas depressivos, que podem causar suicídio, pois a pessoa tem aquele hábito, estar forte, estar bonito perante a sociedade, e a retirada dessa droga pode gerar uma série de consequências de transtornos mentais. 
SBE: Qual a recomendação para as pessoas que optam pelo uso dessas substâncias para conseguir um bom condicionamento mais rápido? 
Jaqueline Souza: Para as pessoas que já fazem uso de anabolizantes, aconselho procurar uma orientação médica para parar esse uso, e fazer uso consciente de uma terapia hormonal. Atualmente, temos muitos profissionais no mercado que podem assistir de forma correta as pessoas, como os nutrólogos e endócrinos, que vão conduzir o paciente de forma adequada. Logo, sempre procurar profissionais, não procurar o caminho mais rápido. 
SBE: Qual seria o melhor caminho para uma pessoa que busca uma vida mais saudável? 
Jaqueline Souza: Tudo passa pela saúde mental, quando a pessoa está com a saúde mental em dia, tem uma reeducação alimentar, tem acompanhamento de um nutricionista, de um educador físico e um profissional médico, os resultados serão mais demorados, mas conseguirá mantê-los a longo prazo. A pessoa não está mudando o corpo, está mudando o estilo de vida, a forma de pensar sobre o corpo, sobre o gerenciamento do dia-a-dia em prol do corpo. Então, tudo isso requer tempo, ajuste mental mais do que físico. Mas, sempre com a orientação de profissionais, porque mesmo que a pessoa esteja com urgência de mudar, o profissional irá saber o melhor caminho a ser seguido. 
Então, a orientação é não procure o corpo perfeito, e sim uma saúde de qualidade. 

Atendimento endócrino gratuito em Pernambuco

Hospital Regional Fernando Bezerra
Av. Teobaldo Gonçalves Torres, 510, Centro – Ouricuri/PE
Tel: (87) 3874.4857
Marcação de consulta: realizada através das secretarias de saúde dos municípios.


Hospital Getúlio Vargas
Endereço: Av. General San Martin, S/N, Cordeiro – Recife/PE
Tel: (81) 3184.5600
Marcação de consulta: Segunda a sexta, das 7h às 17h, no próprio ambulatório. Marcação apenas presencial.


Hospital Regional do Agreste Dr. Waldemiro Ferreira
Endereço: Br-232, Km 130, S/N, Indianópolis – Caruaru/PE
Tel: (81) 3719.9400
Site: http://www.hra.saude.pe.gov.br/


Atendimento Endócrino, Psicológico e Nutricional 

Hospital Ermírio Coutinho
Endereço: Travessa Bancário Leopoldino Vieira de Melo Filho, S/N, Centro – Nazaré da Mata/PE
Tel: (81) 3633.4650
Marcação de consulta: Presencial


Atendimento Psicológico

Hospital Geral de Areias
Avenida Recife, 810, Estância
Tel: (81) 3182. 3000

CEPPA - Centro Pernambucano de Psicologia Aplicada
Rua Dona Benvinda, 252, Paissandu – Recife/PE
Tel: (81) 3231.0039/3126.0038
Horário de Funcionamento: Segunda a sexta das 8h às 17h / Sábado das 8h às 12h
Site: https://ceppa-pe.com.br/

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Eutanásia: a jovem com problemas psiquiátricos que conseguiu ajuda dos médicos para morrer


Aurelia Brouwers olha para o quadro em que anotou o dia em que seria submetida à eutanásia: 'Estou pronta para viajar', disse ela ao médico
Em janeiro, uma holandesa identificada como Aurelia Brouwers bebeu veneno fornecido por um médico e se deitou para morrer. A eutanásia - morte assistida por um médico - é legal na Holanda, e o suicídio de Brouwers foi sancionado pelo Estado. O detalhe, porém, é que não se tratava de um caso de doença terminal - como ocorre normalmente nos que envolvem pedidos de morte assistida. Aurelia foi autorizada a acabar com a própria vida devido a uma doença psiquiátrica.
"Eu tenho 29 anos e escolhi ser voluntariamente submetida à eutanásia. Escolhi isso porque tenho muitos problemas de saúde mental. Sofro de maneira insuportável e sem esperança. Cada suspiro que eu dou é uma tortura ..."
Uma equipe da rede de TV holandesa, RTL Nieuws, passou duas semanas gravando Aurelia enquanto se aproximava da data de sua morte - marcada para as 2h da tarde de sexta-feira, 26 de janeiro. Em um quadro branco na sua casa, ela riscava os dias que faltavam com uma pesada caneta preta.
A jovem passou o tempo, naquelas últimas semanas, com seus entes queridos, fazendo artesanato e andando de bicicleta em Deventer, a cidade que adorava. Também visitou o crematório - o lugar que escolheu para o próprio funeral.
A eutanásia é ilegal na maioria dos países, mas na Holanda é permitida se o médico estiver convencido de que o sofrimento do paciente é "insuportável, sem perspectiva de melhora" e se "não houver alternativa razoável na situação em que se encontra".
Estes critérios podem ser mais simples de aplicar no caso de alguém, por exemplo, com um diagnóstico terminal de câncer sem possibilidade de tratamento que esteja em grande sofrimento. E a maioria das 6.585 mortes por eutanásia na Holanda em 2017 foi justamente de pessoas com alguma grave doença física. 
Houve, no entanto, 83 casos em que o procedimento foi realizado em razão de sofrimento psiquiátrico. 
Nesses casos, houve polêmicas. Eram pessoas como Aurelia, cujas condições, segundo alguns observadores, não eram necessariamente incuráveis.
O desejo de morrer manifestado por Aurelia veio com sua longa história de doença mental.
"Quando eu tinha 12 anos, sofria de depressão. E quando fui diagnosticada pela primeira vez, me disseram que eu tinha Transtorno de Personalidade Borderline (caracterizado, por exemplo, por mudanças súbitas de humor)", diz ela. "Outros diagnósticos se seguiram - transtorno de apego reativo, depressão crônica, eu sou cronicamente suicida, tenho ansiedade, psicoses e ouço vozes."
Os médicos de Aurelia não queriam endossar seus pedidos de eutanásia. Então ela se inscreveu na Levenseindekliniek - a clínica Fim da Vida, especializada em morte assistida - na cidade de Haia, na Holanda. O local é uma espécie de último recurso para aqueles que tiveram suas candidaturas ao procedimento rejeitadas por seus próprios médicos ou psiquiatras. A clínica supervisionou 65 das 83 mortes aprovadas por razões psiquiátricas na Holanda no ano passado - ainda que apenas cerca de 10% dos pedidos com essa motivação sejam aprovados, e que o processo possa levar anos.
"Os pacientes psiquiátricos que vemos são mais jovens que os demais", diz Kit Vanmechelen, psiquiatra que avalia candidatos e realiza eutanásia, mas que não esteve diretamente envolvida na morte de Aurelia.
"Aurelia Brouwers é um exemplo desse quadro. Era uma mulher muito jovem. E isso dificulta a tomada de decisão, porque nesses casos há muita vida subtraída."
Durante suas duas últimas semanas de vida, Aurelia passou por vários momentos de angústia e automutilação.
"Eu estou presa no meu próprio corpo, na minha própria cabeça e só quero ser livre", disse ela. "Eu nunca fui feliz - não conheço o conceito de felicidade."
"Ela realmente não era tão estável durante o dia", lembra Sander Paulus, jornalista da RTL Nieuws que a acompanhou durante grande parte desse período.
"Você sentia que havia muita pressão na cabeça dela. Ela não se expressava muito bem - exceto quando o assunto era a eutanásia. Ela era muito clara nesse ponto."
Mas ter clareza significa que alguém tem a capacidade mental de escolher a morte no lugar da vida? De acordo com a lei holandesa, um médico deve estar convencido de que o pedido de eutanásia do paciente é "voluntário e suficientemente ponderado".
Aurelia Brouwers argumentou que estava habilitada para tomar a decisão. Mas um desejo de morte não poderia ter sido um sintoma de sua doença psiquiátrica?
"Eu acho que você nunca pode ter 100% de certeza disso", diz Kit Vanmechelen. "Mas (antes de aprovar um pedido de eutanásia) você deve ter feito tudo para ajudar o paciente a diminuir os sintomas da patologia que ele tem", observa, acrescentando que, "em transtornos de personalidade, um desejo de morte não é incomum". "Mas que, se ele é constante, e o paciente passou por tratamentos de transtorno de personalidade, é um desejo semelhante ao manifestado por um paciente com câncer que diz: 'Eu não quero ir até o fim (da doença)'."
Essa visão não é universalmente aceita por psiquiatras na Holanda.
"Como eu poderia saber - como alguém poderia saber - que seu desejo de morte não era um sinal de sua doença psiquiátrica? O fato de alguém poder expressá-lo de forma racional não significa que não seja um sinal da doença", diz o psiquiatra holandês Frank Koerselman, um dos principais críticos declarados, no país, à eutanásia em casos de doença mental.
Ele argumenta que psiquiatras nunca deveriam pactuar com clientes que afirmam que querem morrer.
"É possível não ser contaminado pela falta de esperança que eles manifestam. Esses pacientes perdem a esperança, mas você pode ficar ao lado deles e dar-lhes esperança. Você pode deixá-los saber que você nunca vai desistir deles", diz ele.
A morte de Aurelia Brouwers provocou um grande debate na Holanda e ganhou manchetes em vários países. Ninguém sugeriu que o procedimento foi ilegal, mas muitos questionaram se foi para esse tipo de caso que a legislação de 2002 permitindo a eutanásia foi promulgada.
As opiniões dividem-se também sobre se havia uma alternativa aceitável no caso dela. Kit Vanmechelen, por exemplo, argumenta que quando as pessoas solicitam a eutanásia por motivos psiquiátricos, em alguns casos elas se matam se não são atendidas. Em sua opinião, elas devem ser consideradas pessoas com doenças terminais.
"Eu tratei pacientes que eu sabia que cometeriam suicídio", diz a especialista. "Eu sabia. Eles me disseram, eu senti, e pensei, 'eu não posso te ajudar'. Então, ter a eutanásia como alternativa me deixa muito grata por termos uma lei. Os que eu sei que cometerão suicídio são terminais, na minha opinião, e eu não quero abandonar meus pacientes que não conseguem seguir em frente com suas vidas. Isso me deixa disposta a realizar a eutanásia ".
"Eu simplesmente discordo", diz Frank Koerselman. "Na minha carreira inteira trabalhei com pacientes suicidas - nenhum deles foi terminal. Claro que tive pacientes que cometeram suicídio, mas, na verdade, esses sempre foram casos que você não esperava."
No documentário da RTL, Aurelia Brouwers conta que tentou se suicidar "cerca de 20 vezes". "Fiquei em estado crítico algumas vezes, mas meu coração e pulmões eram muito saudáveis. Os médicos diziam: 'É um milagre, ela conseguiu'."
E sobreviver a uma tentativa de suicídio não é incomum - há casos registrados todos os dias. 
Monique Arend, como Aurelia Brouwers, foi diagnosticada com doenças psiquiátricas, incluindo Transtorno da Personalidade Borderline. Pessoas com essa condição se automutilam, têm sentimentos intensos de raiva, acham difícil manter relacionamentos e são emocionalmente instáveis. Monique passou por várias tentativas de pôr um fim à sua vida. 
"Isso (tentar se matar) acontecia em vários lugares - em casa, na floresta ... Mas eu sou muito grata por ainda estar viva", diz ela.
Monique sobreviveu a um episódio brutal de violência sexual, e a terríveis acontecimentos psiquiátricos. Ela pensou muito sobre a eutanásia.
"Eu pensava que era um grande problema para todo mundo, e simplesmente não queria ser esse fardo, e a dor se tornou insuportável. Então preenchi os formulários para a eutanásia. Mas nunca os apresentei."
Monique não apresentou esses documentos porque encontrou ajuda. No início de sua doença, foi aconselhada por um especialista a não falar sobre o abuso que havia sofrido - foi quando ela começou a machucar a si mesma. Depois, entretanto, ela encontrou uma nova terapeuta especializada em trauma.
"Ela me disse que eu não sou louca, mas que estou traumatizada - isso é uma grande diferença. Nós trabalhamos duro juntas - foi muito doloroso. Mas nós atravessamos esse período, e, desde então, estou em uma viagem de recuperação, diz Monique.
Ela escreveu um livro sobre suas experiências e tem alguns conselhos para pessoas que lutam contra pensamentos suicidas ou consideram fazer a eutanásia na Holanda.
"É pesado, duro e difícil", diz ela. "Mas não perca a esperança. Procure pessoas que possam lhe apoiar. Vocês passaram por muita coisa e são muito fortes por terem atravessado isso - ainda há espaço para vocês neste planeta."
O desconforto em torno da eutanásia para pacientes psiquiátricos está ligada à percepção de que todas as opções podem não ter sido exploradas nesses casos.
Na clínica de morte assistida, em Haia, mais da metade dos que vão em busca de eutanásia por motivos psiquiátricos são rejeitados por não terem tentado todos os tratamentos disponíveis.
"Eu tive um paciente que fez muitos tratamentos e estava convencido de que nada mais poderia ajudá-lo. Mas ele nunca havia ido a uma clínica em busca de ajuda para abuso de remédios controlados e álcool", diz Kit Vanmechelen. "Então eu disse a ele: 'Durante um semestre você deve fazer um esforço real para diminuir seu uso dessas substâncias, e se depois o seu desejo de morte permanecer, volte e nós conversamos'."
Mas Vanmechelen acredita que, depois que um paciente passou por vários tratamentos para o mesmo diagnóstico, é razoável dizer que basta.
Foi isso que Aurelia Brouwers argumentou também. Antes da eutanásia, ela havia sido tratada por sua doença - fazia terapia e tomava remédios.
"Precisamos nos livrar do tabu de que você deve permanecer sempre em tratamento, até o amargo fim", disse ela. "Para pessoas como eu nem sempre há uma solução - você não pode continuar tomando remédio, nem rezar indefinidamente... Em algum momento você simplesmente tem que parar."
Mas há pessoas que podem - e conseguem - viver por décadas com distúrbios psiquiátricos.
"Eles (os distúrbios) não são tratáveis ​​como uma infecção, eles são como diabetes - você tem a doença, você terá o resto da sua vida, mas nós, como médicos, vamos tornar possível para você viver com ela", argumenta Frank Koerselman.
"Como as pessoas com diabetes, os pacientes psiquiátricos também são tratados durante anos, mas isso não é um argumento para interromper o tratamento."
"É sabido que depois dos 40 anos as coisas podem ser muito melhores para pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline - seus sintomas podem se tornar muito mais leves".
Nos dias que antecederam a eutanásia ela também visitou o crematório que escolheu para o próprio funeral
Aurelia Brouwers morreu mais de uma década antes de chegar aos 40 anos. Em seu último dia na Terra, ela foi visitada por seu cantor favorito, Marco Borsato. 
Naquela noite, jantou com suas amigas - com risadas e um brinde. Na manhã de 26 de janeiro, ela postou pela última vez nas redes sociais: "Estou me preparando para a minha viagem agora. Muito obrigado por tudo. Eu não estou mais disponível a partir deste momento."
Os entes queridos de Aurelia Brouwers se reuniram em seu quarto. Dois médicos estavam presentes.
"Eu tenho certeza de que no momento em que eu dou o veneno - porque é o que você faz, você dá veneno - eu tenho certeza de que é a única coisa que o paciente quer naquele momento e que ele desejou isso por um longo período, caso contrário, não seria capaz de fazê-lo", diz Kit Vanmechelen.
"No primeiro encontro com um paciente, eu digo a ele, esta será a última pergunta que vou lhe fazer: 'Você tem certeza que quer isso? E se houver uma pequena dúvida, vamos parar, voltar e falar sobre isso novamente.'"
E isso já aconteceu com ela?
"Não. Isso não acontece."
No caso de Aurelia, os médicos não administraram as drogas que a mataram - ela mesma bebeu a medicação.
No documentário da RTL Nieuws, ela tem uma última conversa com Sander Paulus, enquanto segura o pequeno frasco de remédio lacrado.
"Esta é a bebida", diz ela. "Eu sei que o gosto é amargo, então vou engolir rápido. E então vou dormir."
Sander Paulus pergunta se ela tem alguma dúvida.
"Sem dúvidas", diz Aurelia. "Estou pronta - pronta para viajar."
"Espero que você encontre o que está procurando", diz ele.
"Com certeza vou encontrar", responde Aurelia.
Aurelia Brouwers dá as costas a Sander Paulus e sobe as escadas. Logo depois das 14h da sexta-feira, 26 de janeiro de 2018.
Fonte: BBC Brasil

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Ulisses Pernambucano usa horta como terapia ocupacional



O Hospital Ulisses Pernambucano utiliza horta como apoio no processo terapêutico dos pacientes internados. A iniciativa faz parte do programa Horta em Todo Canto, coordenado pela Câmara Intersetorial de Segurança Alimentar e Nutricional de Pernambuco (CAISAN-PE), e visa cultivar o hábito da alimentação saudável na vida das pessoas.
No hospital, o programa ajuda no tratamento dos pacientes como terapia ocupacional. Os usuários podem vivenciar uma experiência social e de integração com o meio-ambiente através da realização de atividades como capinação, plantio e replantio. A unidade de saúde possui um espaço com 35 canteiros, colheita semanal e conta com parceria da Universidade Federal de Pernambuco (UFRPE) e do Centro de Abastecimento e Logística de Pernambuco (CEASA).
"Muitos dos nossos pacientes são de origem rural. Com isso, buscamos também resgatar o que viveram em épocas passadas, trazendo um bem estar natural", explica Minúcio Monteiro, engenheiro agrônomo e membro do Comitê Gestor do Horta em Todo Canto.
O projeto busca estimular a promoção da qualidade de vida através da orientação técnica sobre horticultura e o consumo de produtos cultivados sem agrotóxicos. Todos os alimentos produzidos são consumidos pelo público interno da unidade de saúde, entre eles hortaliças como quiabo, tomate, alface, pimentão, coentro, cebolinha, pimenta, berinjela, couve-de-folhas, cenoura e beterraba.
Periodicamente, são realizadas avaliações nutricionais no local, além de orientações sobre os mitos e verdades sobre a alimentação e dicas para uma reeducação alimentar. As hortas comunitárias pretendem desenvolver boas práticas ambientais e cívicas entre os pernambucanos, bem como, fazer uma integração entre a natureza e os centros urbanos.
O projeto também vem sendo desenvolvido em escolas da rede estadual. Até o ano passado, a Secretaria de Educação implantou 141 hortas escolares em Pernambuco utilizando as hortas como fins pedagógicos, com a participação dos alunos, professores e pais. A equipe também desenvolve trabalhos com os reeducandos da Fundação de Atendimento Socioeducativo (Funase) como forma de ressocialização.