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segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Brasileiras triplicam busca por congelamento de óvulos para adiar maternidade



Desde criança a publicitária Camila Alvarenga de Paula Pinto, hoje com 37 anos, alimenta uma certeza na vida: quer ser mãe. Ela tem como referência a sua própria mãe, Denise, que teve três filhos e ao mesmo tempo construiu uma carreira sólida e de sucesso. A diferença é que a mãe de Camila deu à luz aos 30 anos de idade, no auge da fertilidade, e a publicitária já está com 37 anos e ainda não pretende engravidar. 
A alternativa para Camila adiar mais um pouco o sonho da maternidade foi congelar seus óvulos - técnica existente há mais de dez anos e cada vez mais comum diante das mudanças sociais e comportamentais das mulheres.
Influenciada por uma amiga, Camila passou pelo procedimento no início do ano e disse que o incômodo maior foi receber as doses de hormônio durante 12 dias. "Ao final do período, nos últimos três dias, nem eu me suportava", brinca ela, que está num relacionamento estável, mas ainda não sabe quando será mãe. 
"Meu namorado entendeu e apoiou a minha decisão. Nós sempre conversamos sobre ter filhos, só não sabemos a hora ainda", diz ela. Camila conseguiu coletar 24 óvulos e 18, por terem qualidade, foram congelados. 
Quem fiscaliza as clínicas de reprodução assistida no Brasil é a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas a agência não possui números oficiais de óvulos congelados no país com o objetivo de prolongar a "janela de oportunidade" das mulheres para a maternidade. 
A Anvisa tabula e monitora apenas a quantidade de embriões - segundo o Sistema Nacional de Produção de Embriões, o SisEmbrio, em 2017, 75.557 embriões foram congelados no Brasil, um aumento de 13% em relação ao ano de 2016, quando 66.597 embriões foram congelados.
Levantamento feito pela BBC News Brasil em seis clínicas de reprodução assistida em São Paulo e no Rio de Janeiro confirma essa tendência de aumento de casos de congelamento para preservar a fertilidade. 
A Clínica Huntington, por exemplo, uma das maiores de São Paulo, praticamente triplicou o número de pacientes que congelaram seus óvulos em cinco anos: em 2012, 122 mulheres passaram pelo procedimento; em 2017 foram 353 - um salto de 189%.
O mesmo aumento foi verificado na clínica Fertility, também em São Paulo. Em 2013, 65 mulheres congelaram seus óvulos na unidade, contra 180 no ano passado, o que representa um aumento de 176% na procura pelo serviço. 
"Em 2013, 5,5% dos procedimentos da clínica eram congelamento de óvulos. Em 2015, eles já representavam 9,4%. Em 2018, 1 em cada 5 procedimentos realizados na Fertility são de criopreservação de óvulos. Isso mostra claramente uma mudança de conduta da mulher", afirma Edson Borges. 
Nas Clínicas Mãe e Engravida, o salto foi de quase cinco vezes: saiu de 32 casos em 2012 para 188 casos cinco anos depois.

Idade certa
Os especialistas em reprodução assistida recomendam que a mulher que pretende adiar a gravidez congele seus óvulos até os 35 anos, enquanto eles são mais novos e possuem mais qualidade. 
Apesar disso, a idade média das mulheres que têm procurado o serviço gira em torno de 37,7 anos. "O ideal mesmo seria congelar esses óvulos antes dos 30 anos, mas nessa idade ninguém está pensando nisso ainda", afirma a médica Thaís Sanches Domingues Cury, da Clínica Huntington. 
O principal problema de procurar a técnica mais tarde, explica Thaís, é ter de submeter a paciente a mais de um ciclo de coleta e o risco de os óvulos não terem mais a qualidade necessária. Os médicos sugerem congelar pelo menos 15 óvulos. 
"A mulher de 40 anos tem menos estoque ovariano, então é possível que ela tenha de se submeter ao procedimento mais de uma vez para conseguirmos coletar uma quantidade mínima e segura de óvulos", diz a especialista.
Foi o que aconteceu com a administradora de empresas Magda Barrinuevo Bertochi, de 43 anos, que congelou seus óvulos aos 38 anos depois de passar por dois ciclos de estimulação. Ela conta que tomou a decisão graças a um "empurrão" do irmão, que estava passando por tratamento de reprodução assistida com a esposa. 
"Na época eu estava solteira e super focada na carreira, cursando um MBA e sem tempo para pensar em filhos. Quando meu irmão comentou sobre o congelamento, passei a amadurecer a ideia até decidir procurar ajuda", conta.
Após uma série de exames, Magda constatou que havia pouca reserva ovariana e, por isso, foi submetida a dois ciclos de coleta. Conseguiu recolher 18 óvulos, 9 em cada procedimento. 
"Graças a Deus isso me tirou um peso das costas e me deu uma sensação de alívio. Sei que tenho meus óvulos congelados e que posso decidir ser mãe no momento em que eu achar ideal", afirma a administradora, que ainda está solteira e diz que agora está começando a cogitar a possibilidade de ser mãe independente, com ajuda do banco de sêmen. 
"Eu tenho muita vontade de ser mãe e acho que a mulher vai passando por várias fases até chegar nesse momento. Hoje estou na fase de me perguntar se quero ser mãe solteira ou se quero esperar achar um companheiro", afirmou.
Produção independente
A estatística Rafaela*, de 40 anos, já tomou a decisão de ser mãe independentemente de ter um companheiro ao seu lado. Ela congelou seus óvulos em 2016, aos 38 anos, e mesmo depois de se submeter ao procedimento duas vezes, conseguiu coletar apenas quatro unidades de qualidade. 
"Eu estava solteira e a idade biológica falou mais alto. Ou eu congelava naquele momento, ou não conseguiria ser mãe usando meu próprio material biológico", afirma. 
Dois anos depois do congelamento, Rafaela percebeu que era hora de engravidar. Na ausência de um parceiro, recorreu à doação de sêmen. 
Recebeu da clínica uma lista com uma série de características do doador (raça, cor dos olhos, cor dos cabelos, religião, peso, altura, signo, formação, tipo sanguíneo, hobbies, se era fumante ou não etc.) para escolher alguém que fosse parecido com ela. "Eu adoro esportes, então escolhi um doador que declarou que pratica surf e ama a praia", revelou.
Após a fertilização em laboratório, três embriões se tornaram viáveis para serem transferidos para o útero de Rafaela, mas ela optou por transferir dois e manter um congelado. Um dos embriões vingou e Rafaela está grávida de 12 semanas do seu primeiro filho - graças às técnicas de reprodução assistida. 
"Estou absolutamente realizada e recomendo para todas as mulheres. Depois dos 38 anos, a quantidade de óvulos cai drasticamente."
'Congelamento social'
Os especialistas chamam a tendência de "congelamento social de óvulos", que distinguem, por exemplo, do congelamento em casos de doença - quando a mulher está em tratamento de câncer, por exemplo, e decide congelar seus óvulos para preservar a fertilidade. 
Uma pesquisa realizada pela Universidade de Yale e divulgada no começo do mês passado durante o congresso da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia, em Barcelona, confirmou que a falta de um parceiro ou um relacionamento estável são os principais motivos para as mulheres buscarem ajuda em uma clínica de reprodução. 
Os pesquisadores ouviram 150 mulheres e o resultado mostra que 85% delas estavam solteiras quando tomaram a decisão e 15% tinham um relacionamento com um parceiro que não se considerava disposto a ter filhos.
"Há dez anos, a técnica de congelamento era outra e os resultados não eram tão satisfatórios, havia muitas perdas no processo de descongelamento. Com a vitrificação (técnica atual), a gente consegue ótimos resultados e por prazo indeterminado. Isso acabou se popularizando, e a mulher já chega ao consultório sabendo o que quer", afirmou o médico José Geraldo Alves Caldeira, do Centro de Reprodução Humana do Hospital Santa Joana.
Efeitos colaterais e riscos
Segundo Caldeira, os efeitos colaterais do período em que a mulher recebe hormônio para superestimular a ovulação são irritação, ansiedade e em alguns casos um pouco de inchaço. 
Ainda segundo ele, os hormônios que a mulher vai receber nesse período são o FSH e LH - que já circulam normalmente no organismo. Esses hormônios são diferentes dos hormônios usado em pílulas anticoncepcionais (estrógeno e progesterona), que têm como objetivo justamente impedir a ovulação.
"O que acontece é que ela vai receber uma dose maior de FSH e LH e, em vez de ovular um único óvulo, vai ovular vários", explica o médico, ressaltando que, nessa fase do tratamento, não há riscos de trombose ou embolia, por exemplo. 
No caso de mulheres com histórico de câncer de mama na família, Caldeira explicou que a estimulação ovariana é feita com outro hormônio, o letrozol.
De acordo com Caldeira, quando a mulher for preparar o endométrio para receber o embrião, aí sim o risco de trombose aumenta - caso a paciente tenha pré-disposição ou antecedentes. 
Para evitar o problema, todas as mulheres passam por exames que avaliam esse risco e, se ele existir, recebem junto um medicamento anticoagulante diariamente.
Investimento
O Sistema Único de Saúde não paga pelo processo de congelamento de óvulos para adiar a maternidade. 
Hoje há apenas 11 hospitais públicos no Brasil que trabalham com reprodução assistida - todos com filas imensas e já para fazer o tratamento em si. 
Assim, a mulher que deseja ser mãe mais velha precisa investir cerca de R$ 18 mil no procedimento. Os preços variam de clínica para clínica, mas apenas os custos com medicação somam cerca de R$ 6 mil. 
A parte clínica e de laboratório giram em torno de R$ 12 mil. Além disso, a mulher terá de pagar cerca de R$ 1 mil por ano para manter os óvulos criopreservados.
Anualmente, as clínicas são fiscalizadas pela Anvisa, que vai observar se as unidades cumprem os requisitos de qualidade para manter material biológico congelado e vai monitorar a qualidade dos procedimentos. 
Segundo João Batista Silva Junior, gerente de Departamento de Sangue, Tecidos, Células e Órgãos da Anvisa, a agência está iniciando uma nova discussão para atualização das normas sanitárias para atualizar a regulamentação.
"A última revisão foi em 2011 e muita coisa nova surgiu nesse período", afirmou Silva. 
Atualmente, não há lei que regulamente a reprodução assistida no Brasil, há apenas a Lei de Biossegurança, que fala sobre armazenamento e destino dos embriões. As técnicas de reprodução são embasadas em resoluções do Conselho Federal de Medicina (CFM), que atualiza a norma a cada dois anos, em média.
*Nome alterado a pedido da entrevistada
Fonte: BBC Brasil

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Dermatologista recomenda 6 cuidados após a aplicação do Botox



Por Rebeka Gonçalves
A toxina botulínica popularmente conhecida como Botox é uma substância produzida por uma bactéria chamada Clostridium botulinum. É a mesma bactéria causadora da doença botulismo, mas a toxina botulínica industrializada é purificada e usada em doses que não causam a doença. A toxina é aplicada no músculo e provoca o relaxamento da região. 
No Brasil, o Botox foi a primeira toxina botulínica registrada, e em 1992, aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Desde então, tem tido um aumento progressivo de aplicações para usos estéticos, como suavizar rugas e linhas de expressão do rosto, além do preenchimento facial. 
Entretanto, são necessários cuidados, principalmente depois da aplicação. Por isso, o Blog Saúde e Bem Estar conversou com a dermatologista Roberta Castro que fez seis recomendações para esse momento.
1 - Evitar massagens faciais após a aplicação 
Devido ao risco de migrar a substancia para algum outro local onde não queria que fosse aplicado. 
2 - Evitar exercícios físicos 
No dia da aplicação, não é recomendado que pratique nenhuma atividade física, o ato de deitar também pode levar a um edema facial e fazer com que a toxina migre para outro local, que não seja o que queira atingir. 
3 - Evitar deitar nas primeiras horas 
Assim como os exercícios, também há o perigo da toxina ir para outro lugar que não o desejado. 
4 - Não realizar limpeza de pele 
Principalmente a limpeza profunda no dia da aplicação, assim como fazer a sobrancelha ou outros procedimentos que podem promover uma massagem ou compressão na face. 
5 - Usar filtro solar
É ideal que seja usado todos os dias, independente da aplicação de Botox, mas principalmente em caso de aparecimento de pequenos hematomas – nos locais das injeções – para evitar pigmentação da pele. 
6 - Evitar ácidos 
O uso de ácidos ou produtos que possam irritar a pele, imediatamente, após a aplicação não devem ser utilizados, pois podem entrar nos furinhos e devido a solução de continuidade na pele nos locais das injeções. 
A aplicação do Botox pode ser realizada em qualquer pessoa, mas o recomendado é após os 25 anos ou quando as rugas de expressão começam a incomodar. Porém, para mulheres grávidas ou que estejam amamentando não é recomendado o uso dessa aplicação, como explica a dermatologista: “Ainda não há estudos controlados suficientes que comprovem segurança, no caso dessas mulheres em estado mais sensível”, afirma. O procedimento deve ser realizado sempre por um profissional adequadamente treinado e com experiência, assim a aplicação do Botox se tornará um tratamento mais seguro. 

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Governo elabora primeiro protocolo para tratamento de obesidade


Prazo para contribuições da sociedade civil termina nesta terça-feira
O Ministério da Saúde abriu uma enquete pública para elaborar o primeiro Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para tratamento de casos de obesidade e sobrepeso. O documento poderá receber contribuições de representantes da sociedade civil e profissionais de saúde até o próximo dia 11 de setembro.
Segundo o Ministério, o objetivo é aprimorar e qualificar o atendimento e a conduta terapêutica de pacientes na atenção básica e especializada no Sistema Único de Saúde (SUS). A pasta alerta que a adoção do protocolo pode contribuir para prevenir e controlar a obesidade e o sobrepeso no país, além de garantir mais segurança e efetividade clínica e científica aos profissionais de saúde.
A obesidade é uma das doenças que mais tem crescido nos últimos anos em nível global. Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram que os índices de obesidade e sobrepeso quase triplicaram desde 1975. Em todo o mundo, existem pelo menos 650 milhões de obesos. No Brasil, um em cada cinco pessoas estão obesas e mais da metade da população das capitais estão com excesso de peso, segundo a Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel).
O impacto sobre o Sus também tem crescido. Em 2012, a rede pública realizou pouco mais de mil cirurgias bariátricas e reparadoras de pacientes obesos. O número de intervenções subiu para 8,1 mil, em 2016, segundo o Ministério da Saúde.
Participação
A Sociedade Brasileira de Endocrinologia convocou a participação de endocrinologistas na elaboração do protocolo. A Associação Brasileira de Nutrologia (Abran) também se manifestou favorável à contribuição dos nutrólogos para elaborar o protocolo, devido à preocupação com a gravidade e o aumento da doença na população.
“A obesidade é uma doença crônica e multifatorial, que vai desde meio ambiente até condição de alimentação, meios de saúde e até genética. Por ser considerada uma doença crônica, infelizmente, se você para de tratar, ela volta. Ela é responsável por mais de 30 patologias, desde a hipertensão, diabetes, colesterol elevado, infarto, acidente vascular cerebral e até câncer”, alertou Dimitri Homar, representante da regional da Abran, em Brasília.
Uma das demandas que o especialista coloca é a volta de medicamentos de baixo custo que auxiliavam no tratamento da obesidade e foram retirados do mercado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
O Ministério da Saúde explicou que a enquete garante a participação popular desde a primeira etapa do processo de elaboração do protocolo, que ainda deve passar por consulta pública para deliberação final.
Fonte: Agência Brasil

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Anvisa aprova registro de medicamento para tratar epilepsia



A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o registro de uma nova opção terapêutica para o tratamento da epilepsia. O produto é o Levetiracetam, medicamento genérico que será comercializado em solução oral.
Segundo a agência, o remédio é indicado como monoterapia para o tratamento de crises parciais, com ou sem generalização secundária, em pacientes a partir dos 16 anos com diagnóstico recente de epilepsia.
O medicamento também é indicado como terapia complementar no tratamento de crises parciais em adultos, crianças e bebês a partir de 1 mês de vida e está autorizado para uso durante crises mioclônicas (espasmos rápidos e repentinos) em adultos e adolescentes a partir dos 12 anos.
O Levetiracetam poderá ser usado ainda em situações de crises tônico-clônicas (combinação de contrações musculares) primárias generalizadas, em adultos e crianças com mais de 6 anos com epilepsia idiopática generalizada.
“Para a Anvisa, a concessão de registro de um novo medicamento genérico é de extrema importância para ampliar o acesso da população a medicamentos com qualidade e com redução de custo”, informou a entidade, por meio de nota.
Fonte: Agência Brasil

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

'Sonho com um abraço': a luta de uma mãe para deter doença degenerativa do filho



"Chegaram! Eles já estão na farmácia. É dia de festa..."
O relógio marcava 7h57 de terça-feira, 7 de agosto, quando a nutricionista potiguar Michelle Costa, de 32 anos, leu a notícia no WhatsApp e soluçou, aos prantos: "Não acredito". 
Eram as primeiras seis doses do medicamento de que precisa para impedir que a doença do filho de 1 ano e 4 meses continue avançando. 
Elas haviam chegado a Natal, no Rio Grande do Norte, onde moram - após quase quatro meses "de luta". 
"E confirmar isso foi como tirar metade do peso que carrego nas costas."
AME
Guilherme foi diagnosticado em abril com Atrofia Muscular Espinhal (AME), doença rara e degenerativa que causa perda de função em células ou órgãos - e, nesse caso, gera dificuldades de locomoção e favorece o desenvolvimento de problemas respiratórios que, em algumas situações, podem levar à morte nos primeiros 2 anos de vida.
De forma geral, também deixa as pernas mais fracas que os braços e torna os atos de mamar e engolir outros alimentos mais difíceis.
Guilherme sente, em parte, isso.
Ele não tem dificuldades respiratórias, mas causa "medo" nos pais se tosse ou tem refluxo, com possibilidade de engasgo. 
O bebê também não mexe as pernas como antes, não senta sem apoio, não deu os primeiros passos, nem tem força para envolver a mãe no que ela chama de "sonho": "Um abraço."
Neste depoimento à BBC News Brasil, Michelle narra "a dor" de encarar a doença e a verdadeira "corrida contra o tempo" em que ingressou com o marido, o analista de sistemas Rinaldo Silveira, de 30 anos, para deter as perdas que vê, dia a dia, aumentarem no corpo do filho.
O caminho que eles percorreram até agora envolve a via judicial, pela qual conseguiram que a União banque o início do tratamento com a única medicação aprovada para a AME, o Spinraza. O custo somado das seis primeiras doses foi de aproximadamente R$ 2,16 milhões. Cada uma saiu por R$ 360 mil. A primeira foi aplicada na quinta-feira, 16 de agosto.
Outras famílias buscam o mesmo tratamento, em ao menos 106 ações que tramitam atualmente no Brasil.
Esta é a história de Guilherme:
Ser mãe sempre foi um sonho.
Na primeira gravidez, sofri um aborto espontâneo e sentir Gui se formando dentro de mim era algo inexplicável. 
Ele mexia bem, crescia bem. E nasceu em 7 de março de 2017, com 39 semanas.
'Nunca pensei que eu iria viver esse mundo'
Para viver a maternidade, me dedicar a ela, eu tive que desacelerar. 
Eu saía de um trabalho e ia para outro, mas, quando engravidei, optei por ficar em um só emprego.
A coincidência é que o que eu tive de deixar era como nutricionista para crianças com AME tipo 1. A forma mais grave da doença. 
Essas crianças recebiam cuidados médicos em casa, ficavam acamadas, se alimentavam por sonda, usavam ventilação mecânica (para auxiliar a respiração). Eu me perguntava como deveria ser o dia a dia daquelas famílias. 
Pensava em como deveria ser difícil, mas nunca que eu - embora com um caso diferente - iria também viver esse mundo. 
Dificuldades
Quando Gui começou a crescer, percebi que ele não conseguia levar o pezinho até a boca, como outros bebês fazem. 
Ele também não engatinhou e, quando completou seis meses, tinha dificuldade para rolar. 
O pediatra disse que podia ser só do desenvolvimento dele, talvez mais lento que o de outras crianças. 
Mas o tempo foi passando e isso não melhorava. 
Ele não conseguia sentar sem que a gente ajudasse, nem ficava com o tronco totalmente ereto. Se desequilibrava. Não conseguia sustentar o peso do corpo e se apoiar nas coisas para ficar em pé. 
Me diziam para ter fé, mas não era questão de fé. Ele não estava evoluindo nem com fisioterapia e eu queria saber o motivo.
Pedi encaminhamento para o neurologista e, entre os exames que passou, havia um genético para confirmar ou descartar se tinha AME. 
O médico disse para eu não me assustar, que aquela era só uma possibilidade, mas, quando vi a sigla na requisição do exame, meu chão se abriu. Fiquei desnorteada. Eu sabia o que ela significava, só não sabia que havia outros tipos da doença, menos graves. 
Comecei a pesquisar a respeito, e, quanto mais conhecia outras histórias, mais enxergava Guilherme nelas. 
O resultado do exame demorou pouco mais de um mês. Era AME tipo 2. Eu vi em casa, com o meu marido. E foi muito dolorido.
A 'batalha' pela medicação
A AME é uma doença degenerativa, com expectativa de vida baixa. 
A medicação consegue parar a doença, mas só estava disponível fora do Brasil e o preço dela era um balde de água fria.
Mas eu não ia admitir ouvir alguém dizer que não tinha o que fazer, que eu fosse para casa aproveitar o tempo com o meu filho. 
Eu disse que ia lutar de todas as maneiras e que a gente ia conseguir. Que eu não vou perder o meu filho para essa doença.
E aí foi como se tivesse disparado um relógio e a gente tivesse que correr. Tínhamos que correr como se estivéssemos numa maratona.
'Tive que buscar o nascimento de outros sonhos'
Descobrir a doença foi como um luto. Foi a morte de alguns sonhos.
Me vi parada em uma creche, chorando, olhando outras crianças, pensando nas coisas que possivelmente eu não teria com o meu filho.
É muito massacrante ver que diariamente há perdas.
Dói pegar uma foto ou um vídeo e ver que ele já não faz coisas que meses atrás conseguia. 
Mas eu não tive tempo para sofrer demais. Tive que buscar o nascimento de outros sonhos, levantar a cabeça e olhar para frente, porque Guilherme não tem tempo a perder. Por mais que eu quisesse deitar e ficar chorando com o diagnóstico, eu não podia. 
Tive que tomar uma atitude.
Foi por isso que mergulhei na campanha imediatamente (para levantar recursos) e fui à Justiça.
'Queria que ajudassem por solidariedade, e não por pena'
O diagnóstico da AME foi confirmado em 7 de abril. 
No dia seguinte, começamos a definir o que iríamos fazer para levantar os recursos do tratamento. Não podia confiar só na Justiça.
Eu queria que as pessoas conhecessem a doença sem que ele fosse exposto demais, porque é apenas um bebê, e falar das perdas que tem é um sofrimento. Queria que ajudassem por compaixão, por solidariedade, e não por pena. 
E muita gente ajudou, comprando camisas, sandálias, participando de sorteios, de uma vaquinha online e de atividades como um jogo de futebol e uma corrida que fizemos. 
No dia 16 do mesmo mês ingressamos com uma ação contra a União, o Estado e o município e ganhamos um ano de tratamento, mas a União recorreu e eu sabia que muitas famílias ganham liminares, mas até receberem a medicação é um longo processo.
Seis doses do medicamento que pedimos só chegaram esta semana. Foram compradas pela União. O juiz também mandou bloquear recursos nas contas do Estado e do município (Natal), referentes a outras quatro doses. Mas esse processo ainda está em curso.
Cada dose custou mais ou menos R$ 360 mil. 
A primeira foi aplicada nesta quinta-feira (16 de agosto). Eu estava do lado de fora da sala, esperando. Quando ouvi a equipe dizer 'deu certo' foi muito emocionante. Eu, meu marido, as enfermeiras, pessoas que estavam no corredor...todo mundo chorou. Parecia cena de novela.
Agora, ele deve tomar uma dose a cada 15 dias, até completar a quarta. 
Depois, precisará tomar uma a cada quatro meses, para sempre - ou até descobrirem a cura da doença.
Tomar a primeira foi como um renascimento. 
Eu acompanho outras crianças que tomaram e vejo que há resultados.
Com Gui, um dos meus sonhos é o dia em que vou conseguir um abraço.
Ele já me deu um, certa vez, mas do jeitinho dele. 
Ele estava chorando no berço. Eu o deitei na cama comigo, virado para mim, e de repente senti as mãozinhas segurando o meu pescoço. 
Foi assim que adormeceu. Com o abraço que consegue me dar, porque ainda não tem força para o movimento como outras pessoas fazem.
Eu tento dar valor aos pequenos gestos dele, que para mim são muito grandes. Fico feliz com cada conquista. 
A cadeira que virou mundo
Hoje Gui faz dois tipos de fisioterapia, e também tratamento com a fonoaudióloga. 
Quando está em casa, procuramos estimulá-lo de várias formas.
Ele tem uma cadeirinha portátil, que permite que tenha um apoio maior, que fique com os pezinhos no chão. 
Eu faço dessa cadeira o mundo dele. Ponho brinquedos na bancadinha, dou giz de cera, blocos de encaixar.
Uma criança na idade dele deveria estar abrindo os armários, correndo pela casa, mas, como ele não faz isso, vai se desenvolvendo de outras formas. Dentro das limitações que tem, também vai descobrindo as coisas.
A AME no Brasil 
A AME está entre as mais de 8 mil doenças raras conhecidas no mundo e pode afetar crianças e adultos. No Brasil, não há estimativas oficiais sobre o número de casos. Mas, de forma global, estima-se que a cada 100 mil bebês nascidos vivos, entre 7 e 10 sejam portadores. 
Existem quatro formas da doença. Os tipos 1 e 2 são os mais graves, e seus sinais são mais aparentes em crianças.
"Os sintomas podem aparecer ainda no feto, dentro da barriga da mãe, e se estender pela infância", observa o professor Natan Monsores, coordenador do Observatório de Doenças Raras da Universidade de Brasília (UnB), um grupo de pesquisa ligado ao Centro Internacional de Bioética e Humanidades que estuda os efeitos dessas doenças sobre a qualidade de vida das pessoas afetadas a fim de desenvolver estratégias para apoiá-las. "Em alguns casos, os sinais da AME são estáveis ou até regridem", diz.
A AME afeta o sistema nervoso central, provoca fraqueza muscular e é causada por genes defeituosos, que a criança geralmente herda do pai e da mãe. São os genes SMN-1, que estão ligados à sobrevivência dos neurônios que participam da coordenação dos movimentos do corpo.
O Spinraza
O Spinraza, diz o professor, é injetável e aplicado no espaço onde está a medula espinhal do paciente, tratando os casos decorrentes da falta ou defeito do gene SMN-1 no organismo. O medicamento ajuda um outro gene, o SMN-2, a substituí-lo.
"O medicamento detém a progressão da doença, mas os efeitos podem variar caso a caso e a recuperação dos movimentos também depende da combinação com outras abordagens terapêuticas, como a fisioterapia", acrescenta ele.
O Spinraza é fabricado por indústrias baseadas na Alemanha e na Itália e, no Brasil, foi registrado pela americana Biogen, empresa de biotecnologia com foco no desenvolvimento de terapias para doenças graves neurológicas, autoimunes e raras.
O registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) foi concedido no ano passado, o que o tornou apto a ser comercializado no país. 
Com o registro, o preço máximo de aquisição para a União atender a demandas judiciais, que era de R$ 420 mil por ampola quando precisava comprá-lo em outros países, caiu para R$ 209 mil, segundo o Ministério da Saúde. 
Por que o preço é tão alto?
Segundo o professor Natan Monsores, há três explicações para o valor de cada dose atingir esse patamar. 
"Estima-se que tem a ver com os custos de desenvolvimento", diz ele, apontando outras duas questões: "Trata-se também de uma 'droga órfã' (destinada ao tratamento de doença rara), logo, o número de usuários do medicamento é pequeno, o que não permite a diluição do custo na quantidade. O outro ponto é: não se sabe quanto custou desenvolver a terapia e a empresa detém patentes, logo, é ela que faz o preço".
Droga órfã é, segundo ele, "um medicamento destinado ao diagnóstico, prevenção e tratamento de uma doença rara ou negligenciada, cuja produção não é economicamente viável devido ao mercado consumidor estritamente reduzido ou carente de recursos financeiros".
A Biogen, laboratório que detém o registro do Spinraza, foi procurada pela BBC News Brasil, por e-mail e telefone, mas não respondeu às questões enviadas sobre o preço até a publicação desta reportagem.
O Ministério da Saúde diz que, entre janeiro e junho deste ano, destinou R$ 51,3 milhões para aquisição do medicamento. E que atualmente 106 processos contra a União pedem o fornecimento dele, mas que não é possível estimar quanto de desembolso exigiriam. 
O Ministério não comentou qual a capacidade do Estado para arcar com esse tipo de tratamento e suprir, ao mesmo tempo, outras necessidades da população na área. Também não respondeu sobre os critérios para recorrer de decisões favoráveis a pacientes de doenças raras.
'A espera é uma agonia'
"A judicialização é a via pela qual os pacientes têm conseguido garantir acesso ao tratamento. E a espera por ele é uma agonia. É acompanhar a vida do filho ou filha escoar pelos dedos", diz Monsores, da UnB. "E para os pais que vivenciam o sofrimento, o tempo é uma eternidade".
O professor defende que, "num contexto de gestão pública e uso racional de recursos, a análise de incorporação de medicamentos para doenças raras na rede pública leve em conta parâmetros diferentes dos usados para as doenças prevalentes". 
A incorporação de novas tecnologias no Sistema Único de Saúde (SUS) - o que inclui medicamentos, procedimentos e produtos para a saúde - é feita a partir de análise da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), criada em 2012 para assessorar o Ministério da Saúde nesse tipo de decisão. Por lei, o prazo para a tomada de decisão é de 180 dias, prorrogáveis por mais 90. 
Incorporação no SUS
O pedido de incorporação do Spinraza foi submetido em maio deste ano. Se for aprovado, Monsores explica que ele entraria na Relação Nacional de Medicamentos (Rename) e passaria a ser distribuído de graça, mediante prescrição, em centros de referência em doenças raras, geralmente hospitais universitários - e disponibilizado nos hospitais ou em farmácias de alto custo.
"Isso aconteceu com as drogas anti-HIV, que não são baratas, e os medicamentos oncológicos", diz o professor.
"É preciso considerar não apenas o custo-efetividade dos tratamentos, mas avaliações de qualidade de vida, ganhos em autonomia dos pacientes, redução de internações e necessidade de procedimentos complexos. Essa discussão é longa e complexa, mas precisa ser feita. Países como a Inglaterra e o Canadá já se deram conta disso e têm adotado parâmetros diferenciados para incorporação de medicamentos para doenças raras", observa ainda Monsores.
Ele analisa que "o Ministério da Saúde também precisa definir quanto está disposto a gastar com medicamentos para doenças raras ou graves, mas, para isso, precisa oferecer um caminho coerente do ponto de vista metodológico e bioético", o que avalia que não está acontecendo. "Usar avaliação custo-efetividade ou decidir de forma política e aleatória quais tecnologias atenderão pacientes não é condizente com aquilo que os pesquisadores do mundo inteiro têm apontado como caminho", observa ele. 
"É preciso uma mudança de mentalidade técnica. E essa crítica não é só minha", diz ainda, afirmando que "muitos técnicos da Conitec têm feito um esforço para ouvir a comunidade de pacientes e se aproximar de novas metodologias. Mas que a decisão da plenária da Comissão parece obedecer outras agendas".
Sobre as críticas do professor, o Ministério da Saúde limitou-se a dizer que "a avaliação para incorporação de novas tecnologias no SUS se baseia na eficácia, efetividade e no custo-benefício das tecnologias" e que "os estudos que devem ser apresentados à Conitec para o pedido de avaliação exigem expertise e acurácia metodológica". 
"Isso porque se baseiam em revisões sistemáticas da literatura já existente e publicada. E os estudos adicionais para avaliação econômica estimam a relação de custo-efetividade e o impacto orçamentário dessa nova incorporação ao SUS".
O Ministério também ressaltou "que há esforços para ampliação e oferta de medicamentos para população brasileira", citando como exemplo o fato de, entre 2010 e 2018, ter aumentado em 69% a oferta gratuita por meio da Rename. 
'Disputa eterna'
Michelle, mãe de Guilherme, diz que, por enquanto, o futuro que enxerga é "de disputa judicial eterna" para obter as doses de Spinraza de que o filho precisa. 
Com vendas e outras atividades para levantar recursos, divulgadas por meio das redes sociais, ela e o marido arrecadaram cerca de R$ 100 mil - foram R$ 19,5 mil desse total, com uma vaquinha online criada no dia 16 de abril.
"Agora, com as primeiras doses garantidas, achamos que esse dinheiro também pode ajudar outras crianças. Estamos estudando como fazer, mas a ideia é usar parte para comprar equipamentos necessários ao tratamento de Gui e para dar a ele uma melhor qualidade de vida, e outra para comprar e doar equipamentos essenciais para quem tem AME - mas ainda estamos verificando como seria isso, para garantir que a doação ajude realmente quem precisa e seja usada mesmo no tratamento", diz Michelle.
A sensação agora, segundo ela, "é de ter chegado ao final de uma maratona, mesmo sabendo que a jornada ainda será longa".
Fonte: BBC Brasil

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Anvisa libera genérico inédito para tratamento de artrite, lúpus e malária



A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o registro de mais um genérico inédito no país. Trata-se do Sulfato de hidroxicloroquina, recomendado para o tratamento de reumatismo e doenças de pele. O novo medicamento irá ampliar o acesso da população a uma nova opção terapêutica, além de reduzir o custo do tratamento, já que os genéricos são, no mínimo, 35% mais baratos que os originais.
De acordo com Renata Menezes, reumatologista, os benefícios do ponto de vista terapêutico ainda são questionáveis. “Pode ser uma faca de dois gumes. Em relação ao custo ótimo, mas em questão da eficácia a gente não sabe. Existem outras medicações que já foram liberadas pelo SUS, que antes quando era o original fazia bastante efeito, os pacientes saiam da atividade de doença e, a partir do momento que passou para o genérico perdia a eficácia em alguns pacientes”, explica.
Registrado pela empresa EMS S/A,  o remédio é indicado para pacientes portadores de artrite reumatoide (inflamação crônica das articulações), artrite reumatoide juvenil (em crianças), malária (em casos de crises agudas e tratamento supressivo),  lúpus eritematoso (sistêmico e discoide) e problemas de pele provocadas ou agravadas pela luz solar.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Anvisa apreende produtos de diagnóstico in vitro com prazos de validade irregulares


A Agência está emitindo autos de infração para todas as empresas com irregularidades
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) apreendeu diversos produtos para diagnóstico in vitro com as datas de validade alteradas. A ação ocorreu durante uma fiscalização de produtos de saúde importados nos portos, aeroportos e fronteiras do país. Foi identificado que muitos deles traziam prazo diferente do aprovado no registro. 
De acordo com a Anvisa, na prática, isso pode comprometer o funcionamento do produto e a garantia de resultados precisos. O órgão informou que as empresas alteraram o prazo de validade de forma arbitrária, sem encaminhar para a aprovação da Anvisa como é exigido por lei. Esta aprovação é baseada nos estudos que as empresas apresentam para justificar o tempo de vida do produto, ou seja, o período pelo qual é possível garantir que os produtos mantenham suas características de desempenho ideais.
No último mês, a Anvisa realizou uma fiscalização rigorosa nos processos de importação, verificou a existência deste desvio e bloqueou a entrada desses produtos no país. A Agência também está emitindo autos de infração para todas as irregularidades identificadas. Assim serão abertos processos administrativos para apurar a responsabilidade das empresas. Os lotes retidos só serão liberados se os responsáveis apresentarem um embasamento técnico para a alteração dos prazos de validade.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Brasil pode economizar R$ 1 bilhão com genérico contra hepatite C


A utilização de medicamento genérico para o tratamento da hepatite C no Brasil poderia gerar uma economia de cerca de R$ 1 bilhão aos cofres púbicos, segundo informações da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF). De acordo com a entidade, o país tem capacidade para produzir o genérico do sofosbuvir, já analisado e registrado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O início efetivo do fornecimento ao governo, entretanto, depende da conclusão de uma análise de pedido de patente a cargo do Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (Inpi).
Segundo o MSF, quando o sofosbuvir foi lançado no mercado, em 2013, o custo por tratamento chegou a US$147 mil. Atualmente, a entidade garante realizar tratamentos para hepatite C com genéricos ao custo de US$120. A economia de R$1 bilhão, portanto, se refere à diferença entre o preço atual do tratamento com medicamentos de marca e o custo do tratamento com a utilização de genérico nacional, considerando-se a oferta de tratamento para 50 mil pessoas via sistema público de saúde, conforme planejamento divulgado pelo Ministério da Saúde.
A entidade trabalha em projetos que atendem pessoas infectadas pelo vírus da hepatite C em 11 países e, desde 2015, ofereceu tratamento a mais de 6 mil pacientes afetados pela doença. Entre os que concluíram a terapia até o momento utilizando genéricos do sofosbuvir e do daclatasvir, também indicado para o tratamento, a taxa geral de cura foi de 94,9%.
Carta pública
No mês passado, o MSF encaminhou ao Inpi uma carta pública sobre o uso de genéricos para o tratamento da hepatite C no Brasil. No documento, a organização humanitária pede uma análise rigorosa e ágil dos pedidos de patente em questão, levando em consideração o impacto que a decisão pode ter sobre a vida de centenas de milhares de pessoas no país que ainda não têm acesso ao tratamento para a doença.
Por meio de nota, o Inpi informou que o pedido de patente está sendo examinado e que, por este motivo, o órgão ainda não pode se posicionar sobre o assunto. Em abril, o instituto divulgou parecer técnico em que faz exigências ao depositante do pedido de patente, cobrando informações complementares. Uma possível aprovação do pedido de patente de genérico para tratamento da hepatite C, entretanto, segue sem previsão para sair.
Ainda de acordo com o MSF, os países que estão obtendo bons resultados na cobertura do tratamento contra a hepatite C são exatamente aqueles nos quais há genéricos disponíveis. O Egito, por exemplo, ofereceu tratamento a mais de 1 milhão de pessoas via sistema público com o sofosbuvir devido à rejeição de patentes-chave e à introdução de versões genéricas de baixo custo. Índia e Bangladesh são outros exemplos de países que vêm tendo bons resultados com a produção e uso dos genéricos.
“A ampliação do acesso a este tratamento para o vírus da hepatite C é crucial para alcançar a meta de eliminação da doença até 2030, assumida internacionalmente pelo Brasil no âmbito da Organização Mundial da Saúde (OMS) e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Esse acesso só será possível com a entrada dos genéricos, garantindo competitividade e baixo preço, conforme ressaltado na própria Estratégia Global Setorial em Hepatite C da OMS”, destacou o MSF.
Procurado pela equipe de reportagem, o Ministério da Saúde informou que, desde 2015, foram investidos R$ 2,02 bilhões na compra de medicamentos para o tratamento da hepatite C e que a pasta está em processo de aquisição de 50 mil tratamentos.
Doença
A hepatite C é considerada uma doença silenciosa. O vírus contraído pode se manifestar ou ocasionar doenças anos depois. Ela é transmitida por sangue contaminado (em transfusões, por exemplo), ao fazer sexo sem proteção ou pelo compartilhamento de objetos cortantes. O público mais vulnerável são os adultos acima de 40 anos. Quem contrai o vírus pode ter cirrose, câncer e morrer em decorrência dessas enfermidades.
Dados do ministério revelam que existem, no Brasil, mais de 1 milhão de pessoas que já tiveram contato com o vírus da hepatite C e cerca de 650 mil que são afetadas pela doença e poderiam ser beneficiadas pelo tratamento imediatamente.
Fonte: Agência Brasil

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Artigo: Saúde em Roraima em tempos de migração venezuelana e as consequências para o país

Por Altamiro Vilhena
Pediatra e diretor clínico do Hospital da Criança Santo Antônio, Boa Vista, RR
Quando nós, brasileiros, vemos os problemas ligados às migrações de refugiados em países árabes e africanos, nunca nos damos conta que este tipo de problema pode estar bem perto de nós. E é isto que acontece com a migração de venezuelanos em busca de refúgio humanitário que vem para o Brasil, especialmente para o menos populoso estado da federação: Roraima. 
A chegada de cerca de 45 mil venezuelanos em um período de cerca de dois anos afeta todo Estado, especialmente a capital Boa Vista, que possui população estimada em cerca de 350 mil pessoas. A conta é fácil. Imagine você, que está lendo este texto, que em um período de cerca de dois anos, a cidade onde você mora receba mais de 10% do total atual de moradores de pessoas novas. Todos fugindo de um país onde passam dificuldades econômicas severas e muitos em situações de vulnerabilidade extrema. Para complicar ainda mais esta situação, como Roraima tem uma industrialização quase inexistente, a oferta de empregos é bastante limitada e, com certeza, não atende aos anseios dos que chegam, que acabam se dedicando a atividades informais pouco remuneradas. 
Dá para entender porque os serviços de saúde, que se planejam com base na população e nos atendimentos dos anos anteriores, não estejam conseguindo dar conta de forma ágil a todas as novas situações que surgem. Segundo dados da Secretaria de Saúde de Roraima, entre 2014 e 2017, o atendimento a pessoas oriundas do país vizinho saltaram de 760 pessoas para 15.055. No Hospital Materno-Infantil Nossa Senhora de Nazareth, única maternidade do Estado, somente no primeiro semestre de 2018 foram realizados 571 partos de venezuelanas, mais de dez por centro do total de partos.
Além do impacto direto nos serviços, há impacto nas finanças. Dados do Sistema de Informações sobre Orçamentos Públicos em Saúde mostram que, somente em 2017, foram gastos mais de 70 milhões com imigrantes venezuelanos nas unidade de atendimento roraimenses. Em 2016, o total não chegou a 9 milhões.
Alguns dos que vêm, tem como objetivo principal garantir a saúde de um ente querido. Carmen viajou quase 800km para chegar a Boa Vista grávida de mais de oito meses de gestação. Todo este sacrifício tem uma justificativa clara: Dannelys, sua filha de oito anos teve diagnosticado recentemente um tipo raro de sarcoma na mandíbula. Com a crise no país vizinho, não há opção de tratamento, então mesmo tendo recursos, tiveram que deixar seu país. Já Pinar conta que não tinha opção. Estava passando fome com sua família, e nas semanas que demorou até chegar ao país seus filhos ficaram muito desnutridos. O menor está internado na UTI pediátrica do Hospital da Criança Santo Antônio, único hospital infantil do Estado, gerido pela prefeitura municipal de Boa Vista. 
A situação das crianças que chegam, em muitos casos, é bastante precária. Além das dificuldades em seu país de origem, muitas famílias contam apenas com a ajuda do governo e da sociedade para obter alimentação no Brasil, itens de higiene e outras necessidades básicas. Isso faz com que o índice de desnutrição seja bastante elevado entre as crianças, com presença de doenças consideradas pouco frequentes em crianças brasileiras da mesma idade. 
Dentre as crianças atendidas foram dezenas de casos de sarampo, uma criança com difteria e vários pacientes com tuberculose, além dos muitos desnutridos graves. Todas doenças relacionadas diretamente com a falta de imunização e com condições sociais precárias. Soma-se a isso o fato da vacinação não ser obrigatória no país vizinho e os índices de cobertura serem bastante baixos, o que favorece o surgimento de muitas doenças. Somente o sarampo, considerado erradicado no Brasil a partir de 2001, desde fevereiro deste ano já teve mais de 200 casos confirmados, tendo ocorrido dois óbitos em crianças. 
A maior parte dos que chegam permanecem em abrigos superlotados, o que é agravado pelo fato do Estado, localizado no hemisfério norte, estar no período de inverno, e, como é característico na Região Norte, com chuvas torrenciais diariamente há cerca de dois meses. Assim, somam-se aos problemas já existentes, as epidemias de diarreia e o aumento do número de doenças respiratórias, como pneumonia, asma, sinusite e gripe.
Embora existam algumas ações das forças armadas, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa  - e até mesmo da Organização Pan-Americana de Saúde, todas as iniciativas até agora foram pouco efetivas para conter o avanço das doenças e para melhorar o estado de saúde, especialmente das crianças. Sozinhos, o Estado de Roraima e o município de Boa Vista não têm condições de enfrentar as dificuldades que se impõem diante desta crise. 
Como não há perspectiva de mudanças econômicas a curto prazo no país vizinho, a tendência é que o fluxo migratório se mantenha, com migrantes em condições de saúde cada vez piores, o que coloca em risco toda a população. É importante que as autoridades tracem planos viáveis, articulados e efetivos para a assistência à saúde desta população. No mundo de hoje, onde as fronteiras são pouco mais do que linhas em mapas, onde o fluxo de viajantes é sempre intenso e veículos e cargas são transportados para todos os lados, não há mais doença local, os agentes infecciosos têm capacidade de se deslocar tão rapidamente quanto nós. Ajudar quem necessita já não é apenas opção de caridade ou altruísmo, mas questão de saúde pública e proteção. 
*Os artigos publicados no Blog Saúde e Bem Estar são escritos por especialistas convidados pelo domínio notável na área de saúde. As publicações são de inteira responsabilidade dos autores, assim como todos os comentários feitos pelos leitores/internautas.