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sábado, 15 de setembro de 2018

Alzheimer pode atingir até 40% dos idosos acima de 85 anos



Por Rebeka Gonçalves
O Alzheimer é uma doença neurodegenerativa, que se caracteriza pela perda progressiva dos neurônios. Normalmente, se manifesta com pequenos esquecimentos, depois surge a dificuldade em articular palavras, problemas na execução de atividades do dia a dia e evolui para alterações de comportamento. 
Para falar sobre o assunto, o Blog Saúde e Bem Estar convidou a neurologista do Hospital Pelópidas Silveira, Camila Lyra, para explicar a importância de um diagnóstico precoce para um possível retardo da doença.
SBE: Como podemos perceber que uma pessoa pode estar com o mal de Alzheimer? 
Camila Lyra: Os sintomas iniciais são caracterizados por perda de memória recente, ou seja, dificuldade de reter informações novas e aprender novas atividades. Outros sintomas comuns são alteração da personalidade e comportamento, realização de atividades que já havia aprendido, orientação no espaço, inclusive locais anteriormente conhecidos. A doença é dividida em fase leve, moderada ou grave. Com a evolução, o paciente se torna cada vez mais dependente de cuidado de outras pessoas. Nas fases avançadas, o paciente necessita de ajuda para atividades básicas como ir ao banheiro, comer e andar.
SBE: Como é realizado o diagnóstico? 
Camila Lyra: A doença é diagnosticada através da história clínica, o médico ouvindo o paciente e seus familiares e cuidadores. São feitos também testes específicos, como mini exame do estado mental, uma avaliação breve que ajuda a dar o diagnóstico. Também são realizados exames complementares, como tomografia de crânio ou, de preferência, ressonância magnética. Nos casos mais duvidosos, deve ser feita avaliação cognitiva com neuropsicólogo e podem ser realizados exames de biomarcadores, que conseguem detectar as alterações moleculares, como Pet scan de beta amiloide e exame do líquido cefalorraquidiano com análise de proteínas que estão alteradas na doença, que são a beta amiloide e proteína tau fosforilada. 
SBE: O tratamento pode levar a cura do mal de Alzheimer?
Camila Lyra: O tratamento é feito com medicações sintomáticas, não existindo ainda tratamento curativo. Algumas medicações têm como objetivo melhorar as queixas de memória, outras de melhorar os distúrbios de comportamento e também a melhora do sono. O tratamento é direcionado para cada paciente. As medicações consideradas específicas para memória são os inibidores de acetilcolinesterase e anti- NMDA. Medicações curativas estão sendo estudadas, porém ainda sem resultados reais. Não há benefício concreto em reposição de vitaminas, ômega 3 ou suplemento alimentares. 
SBE: Quais os fatores de risco para uma pessoa ter a doença? 
Camila Lyra: O principal fator de risco para o desenvolvimento da doença é a idade avançada. Após 65 anos esse risco dobra a cada 5 anos. Até 40% das pessoas acima de 85 anos terão o diagnóstico da doença, conforme afirma a Associação Brasileira de Alzheimer. 
Outros fatores de risco associados ao desenvolvimento da doença são hipertensão arterial sistêmica, diabetes, colesterol alto, ou excesso de gordura no sangue, os mesmos fatores de risco de um infarto agudo do miocárdio ou de um acidente vascular isquêmico. 
Existem alguns casos genéticos familiares, em que o paciente desenvolve a doença em idade mais nova, normalmente, por volta dos 30 anos de idade, devido a alteração genética.  
SBE: Existe alguma forma de prevenção? 
Camila Lyra: Não há nenhum tipo de medicação preventiva. A prevenção mais efetiva da doença são hábitos de vida saudáveis e controle das doenças como hipertensão e diabetes. Dieta balanceada, exercícios físicos regulares e controle de doenças cardiovasculares são as melhores formas de prevenção. A maior escolaridade também diminui o risco, ou pelo menos atrasa o início da doença. 
Estudos comprovaram que idosos que participam de atividades de socialização tem menor risco ou uma lenta evolução da doença. Então, para evitar que o cérebro se ‘aposente’ é interessante adotar algumas estratégias como: praticar atividade física; estimular a leitura; fazer uso de jogos como sudoku e palavras cruzadas. 
SBE: Como lidar com quem tem Alzheimer? 
Camila Lyra: A família precisa ter informação, ler muito a respeito, pois os cuidados são intensos. A família precisa ser paciente, entender que o comportamento da pessoa com Alzheimer independe da vontade dela. Quem cuida precisa estar bem, pois o desgaste é grande. 
Os idosos são suscetíveis a distúrbios no humor, por isso podem ficar alterados e acabam irritando os familiares. É importante frisar que aquela pessoa não tem culpa de não se lembrar de nada ou de ter aquele comportamento, mas que ela já foi alguém muito produtiva e importante na sua vida.  

sábado, 11 de agosto de 2018

Por que um especialista em lesões cerebrais quer restringir a cabeçada no futebol



Cabecear uma bola de futebol deveria ser algo restrito a jogos profissionais, e vetada para menores de 18 anos, segundo um dos maiores especialistas do mundo em lesões cerebrais.
Bennet Omalu foi o primeiro médico a publicar sobre a Encefalopatia Traumática Crônica (ETC), uma condição que tem efeitos de longo prazo e é causada por traumas repetidos na cabeça.
"Não faz sentido controlar com a cabeça um objeto que viaja a uma alta velocidade", diz Omalu. "Acredito que, em algum momento, a nível profissional, precisamos restringir cabeçadas. É perigoso."
Falando à emissora BBC Radio 5, o neuropatologista acrescentou: "Nenhuma pessoa com menos de 18 anos deveria cabecear uma bola de futebol".
"Crianças com menos de 12 anos deveriam jogar uma forma de futebol com menos contato entre elas. Crianças com 12 a 18 anos poderiam jogar, mas não deveriam cabecear", disse.
"Sei que isso é algo difícil de aceitar para muitas pessoas, mas a ciência evolui. Nós mudamos com o tempo. A sociedade muda. É hora de mudarmos alguns comportamentos."
Jogador teve lesão cerebral e Alzheimer
No início dos anos 2000, uma investigação sobre a morte do jogador Jeff Astle concluiu que ele faleceu por conta de uma lesão cerebral causada por cabeçadas em bolas pesadas feitas de couro.
Ele morreu em 2002, aos 59 anos, depois de sofrer do mal de Alzheimer por quase 10 anos, após uma carreira de 18 anos no futebol.
Na quarta-feira, sua filha, Dawn, pediu que seja investigada a relação entre a Encefalopatia Traumática Crônica e as cabeçadas neste esporte.
"Esse é um fato agora. Não estamos presumindo que outros jogadores podem ter morrido da mesma doença do meu pai, isso é um fato agora", disse ela.
Seus comentários foram feitos após a morte, em abril, do jogador Rod Taylor, que sofria desta mesma condição.
Sua filha, Rachael Walden, disse à BBC que cabecear não deveria ser banido, mas defende que a Associação de Jogadores de Futebol Profissionais (PFA, na sigla em inglês) e a Associação de Futebol, duas das principais entidades do esporte na Inglaterra, deveriam fazer mais para apoiar ex-jogadores e suas famílias.
"A demência do meu pai foi causada por cabeçadas e concussões. Não podemos esperar que eles morram antes de começar a ajudá-los. Precisamos ajudá-los agora", disse ela.
"Não estamos culpando os clubes de futebol ou os clubes pelos quais ele jogou. Temos orgulho deles. Não se trata de mudar o esporte, mas de tentar fazer com que a PFA assuma sua responsabilidade por seus membros na hora em que eles mais precisam."
Outros jogadores já foram diagnosticados com demência
Diversos ex-jogadores já foram diagnosticados com demência, entre eles os campeões mundiais Nobby Stiles, Martin Peters e Ray Wilson, que fizeram parte da seleção inglesa.
Ao falar sobre os efeitos das cabeçadas, Omalu disse: "O cérebro humano flutua como um balão dentro do crânio, então, quando você cabeceia uma bola, você sofre uma lesão cerebral. Você machuca seu cérebro quando cabeceia a bola".
"Jogar futebol aumentaria o risco de sofrer uma lesão cerebral quando você fica mais velho e de desenvolver demência e encefalopatia traumática crônica."
Já houve uma série de iniciativas para combater lesões na cabeça em esportes. No críquete, passaram a ser admitidas substituições de jogadores que tenham sofrido concussões ou em casos em que há uma chance de que isso possa ter ocorrido. No rugby, foi divulgado em março um plano de ação para tornar o esporte mais seguro.
Matéria original no site da BBC Brasil, disponível aqui.

domingo, 5 de agosto de 2018

Por que a demência afeta mais mulheres que homens



Por Laura Oliver/BBC
Diagnosticada com mal de Alzheimer em 2015, Brenda Whittle, de 75 anos, ainda gosta de quebra-cabeças, costura e dança. Novas atividades não lhe atraem muito, mas participar de testes clínicos de medicamentos para tratar a doença é uma exceção. Ela está tão acostumada com tomografias que chega a cochilar dentro dos aparelhos. 
Brenda é uma entre as mais de 50 milhões de pessoas no mundo inteiro que vivem com demência - uma categoria que engloba várias doenças e transtornos que afetam a memória e o processamento do cérebro, incluindo Alzheimer. Esse número está aumentando rapidamente. Globalmente, especialistas estimam que 75 milhões de pessoas viverão com demência em 2030, e 131,5 milhões em 2050. A maioria dessas pessoas são mulheres.
Na Austrália, quase dois terços das doenças relacionadas a demência vitimam mulheres; nos EUA, dois terços das pessoas que vivem com a doença são mulheres. Em alguns casos, a demência supera "doenças femininas" mais conhecidas: mulheres americanas com mais de 60 anos têm duas vezes mais chances de desenvolver Alzheimer do que câncer de mama (câncer de mama continua sendo a principal causa de morte entre mulheres britânicas com idade entre 35 e 49 anos).
E na Inglaterra, assim como na Austrália, a demência se tornou a principal causa de morte entre as mulheres, derrubando as doenças cardíacas do topo da lista.
No Brasil, o número de pessoas com Alzheimer ultrapassa 1,2 milhão, segundo a Associação Brasileira de Alzheimer. Mas não há dados mais específicos sobre as mulheres. 
"Isso não pode ser sustentado por nenhum sistema de saúde - é demais em termos de números", diz Antonella Santuccione-Chadha, médica especialista em Alzheimer e baseada na Suíça. "E conforme mais e mais mulheres sofrem a doença, precisamos investigar as diferenças nas especificidades entre homens e mulheres". 
Boa parte da diferença de gênero está ligada a um dos maiores fatores de risco da demência: idade. Quanto mais velho você é, maior a propensão de desenvolver Alzheimer. Mulheres tipicamente vivem mais que os homens, então mais mulheres sofrem demência.
Mas pesquisas recentes apontam que seria errado assumir que Alzheimer é uma doença inevitável. Resultados de dois grandes estudos de Funções Cognitivas e Envelhecimento (CFAS, na sigla em inglês) sugerem que, ao longo dos últimos 20 anos, novos casos de demência no Reino Unido caíram em 20% - principalmente por causa da queda na incidência da doença entre homens com mais de 65 anos. 
Especialistas dizem que pode ser por causa das campanhas de saúde pública sobre doenças cardíacas e fumo. Ambos são fatores de risco para o Alzheimer. Mas porque os homens tendem a ter doenças do coração mais cedo e fumam mais que as mulheres, essas campanhas também podem ajudar a diminuir esses fatores de risco mais entre os homens do que entre as mulheres. 
Enquanto isso, outros fatores de risco da doença afetam mais as mulheres que os homens. Por exemplo, mais mulheres sofrem depressão - e a condição foi ligada ao acometimento de Alzheimer. Outros fatores de risco afetam apenas as mulheres, como menopausa cirúrgica e complicações de gravidez como a pré-eclâmpsia, ambos problemas ligados ao declínio cognitivo na fase mais avançada da vida.
Tarefas sociais como cuidar do outro também podem aumentar a chance de desenvolver demência. Algumas pesquisas mostram que ser uma cuidadora em si é um risco de sofrer Alzheimer, diz Annemarie Schumacher, uma psicóloga. No Reino Unido, entre 60 e 70% das pessoas que cuidam de pessoas com demência sem ser pagas são mulheres.
"A prevenção específica de gênero pode começar com ter mais informações sobre fatores de risco específicos entre as mulheres", diz Maria Teresa Ferretti, uma pesquisadora biomédica especializada na doença de Alzheimer da Universidade de Zurique.
Essa ideia está ganhando força. O grupo Projeto Cérebro das Mulheres (WBP, na sigla em inglês), cofundado por Santuccione-Chadha, Ferretti e Schumacher além da química Gautam Maitra, recentemente publicou um relatório analisando uma década de literatura científica sobre Alzheimer, que revisou dados existentes e pedindo a cientistas que estratificassem os resultados por sexo pela primeira vez.
"As diferenças mais óbvias que tiramos da literatura estão na exposição e progressão de sintomas cognitivos e psiquiátricos entre homens e mulheres com doença de Alzheimer. Com base nesses novos estudos, podemos desenhar novas hipóteses e descobrir novas formas de melhorar tratamentos para pacientes", diz Ferretti.
Atualmente, por exemplo, o mal de Alzheimer é detectado na busca por duas proteínas tóxicas que ficam acumuladas no cérebro. Evidências sugerem que não há diferença nos níveis dessas proteínas, ou "biomarcadores" (indicadores mensuráveis da severidade ou da presença de algum estado de doença), entre homens e mulheres com Alzheimer. Mas as mulheres apresentam maior declínio cognitivo.
Como resultado, os biomarcadores "podem ter um valor previsível diferente em homens e mulheres", diz Ferretti: "nós talvez tenhamos que fazer um ajustamento na representação visual de biomarcadores bioquímicos e neuropsicológicos em homens e mulheres, ou encontrar biomarcadores específicos para cada gênero".
Outra questão para os pesquisadores é por que a doença avança mais rápido nas mulheres do que nos homens após o diagnóstico. Uma linha de pensamento sugere que o estrogênio protege o cérebro das mulheres quando elas são mais jovens, mas que esses benefícios acabam, assim como o estrogênio, com uma certa idade.
Outra pesquisa sugere que as mulheres desempenham melhor nos testes iniciais usados, o que pode levar a erros de diagnóstico na etapa inicial, o que também pode levar médicos a subestimar a severidade da doença. Se esse for o caso, exames de diagnóstico precisarão ser mudados para refletir as diferenças neuropsicológicas de homens e mulheres.
Outro desafio tem sido a maneira como testes clínicos para os medicamentos de Alzheimer são feitos. Caros e longos, eles tendem a usar tanto homens quanto mulheres, apesar de a doença afetar mais mulheres que homens.
Para outros problemas, como depressão e esclerose múltipla, a "prevalência é geralmente refletida", diz Santuccione-Chadha. "Se mais mulheres são afetadas por essas doenças, mais mulheres geralmente são incluídas nos testes". Essa estratégia parece ter funcionado: "Temos vistos medicamentos bem-sucedidos nas áreas dessas doenças", diz ela. Já no caso dos medicamentos para Alzheimer, a maioria dos testes falhou na última década.
Comparada a outras doenças, a pesquisa sobre demência continua a ter menos fundos que outras. Historicamente, no Reino Unido, 8 centavos de libra são gastos em pesquisas de novos tratamentos para demência para cada 10 libras (R$ 45) gastas no tratamento de pessoas com a doença, segundo uma pesquisa da Universidade de Oxford. Já no caso do câncer, gasta-se 1,08 libra em pesquisas para cada 10 libras em tratamentos.
A discrepância de fundos é repetida em outros lugares: em 2017, nos EUA, dados dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH na sigla em inglês) sugerem que cerca de U$ 3,03 bilhões (R$ 11 bi) foram gastos em pesquisas sobre o Alzheimer e doenças relacionadas, enquanto U$ 9,87 bilhões (R$ 34 bi) foram destinados a pesquisas sobre câncer. 
Os investimentos em pesquisa, entretanto, estão aumentando, graças a iniciativas de impacto como a recente doação de U$ 50 milhões (R$ 185 milhões) feita por Bill Gates. 
Mas ainda "há muito o que fazer para acompanhar", diz Hilary Evans, CEO do centro de pesquisa sobre Alzheimer do Reino Unido. "Nós devemos ver mudanças significativas de investimentos para garantir que tenhamos os mesmos avanços para pessoas com demência do que os que vemos para câncer e doenças cardíacas nos últimos anos".
Quanto a Brenda, ela consegue se virar com a ajuda de um rastreador com GPS comprado após uma viagem no trem errado, e com post-its com lembretes grudados pela casa pelo seu marido, Stephen. Ambos dizem que planejam continuar envolvidos em discussões e pesquisas sobre a doença.
O envolvimento de casais como Brenda e Stephen é essencial. Pesquisas feitas levando em consideração o gênero já estão trazendo novas possibilidades para como detectamos, tratamos e cuidamos do número crescente de pessoas vivendo com a doença. Detectar qualquer diferença pode ajudar a resolver um dos maiores mistérios medicinais do nosso tempo - uma chance que seria uma grande tolice desperdiçar, segundo especialistas.
*Esta matéria faz parte da Health Gap, uma série especial da BBC sobre como homens e mulheres experienciam o sistema de saúde - e sua própria saúde - de maneiras distintas. 
Matéria original no site da BBC Brasil, disponível aqui.