Gordon
Harold*
O ambiente doméstico tem um grande impacto sobre a saúde mental e o
desenvolvimento de longo prazo das crianças - e não apenas por causa da relação
entre pais e filhos.
A dinâmica de
relacionamento entre os próprios pais também desempenha um papel crucial no
bem-estar das crianças, em sua performance acadêmica e até em seus relacionamentos
futuros.
Antes de mais nada, é
preciso destacar que, na maioria das vezes, pequenas discussões cotidianas são
parte da vida e têm um impacto nulo ou muito pequeno nos pequenos. O que
realmente afeta as crianças são comportamentos como gritos e demonstrações
mútuas de raiva diante dos filhos, ou quando um cônjuge ignora o outro
constantemente.
Uma recente revisão de
pesquisas internacionais, conduzidas ao longo de décadas e analisando
comportamentos domésticos e o desempenho de crianças ao longo da vida, sugere
que, a partir dos seis meses de vida, crianças expostas a conflitos tendem a
ter batimentos cardíacos mais acelerados e níveis mais altos de estresse - o
que, por sua vez, prejudica a formação de conexões neurais nos cérebros
infantis.
Conflitos interparentais
severos ou crônicos podem, portanto, provocar consequências como interrupções
no desenvolvimento cerebral, distúrbios do sono, ansiedade, depressão,
indisciplina e outros problemas graves em bebês, crianças e adolescentes.
Efeitos similares são
observados em crianças expostas a brigas menos intensas, porém contínuas, em
comparação com crianças cujos pais resolvem seus conflitos e negociam entre si
de modo construtivo.
Do
divórcio a trocas afetivas
O que realmente afeta as
crianças pode causar surpresa. Muitos adultos acreditam que o divórcio - ou a
decisão dos pais de deixarem de morar juntos - tenha efeito duradouro e danoso
nos filhos. No entanto, um estudo publicado em 2012 pela Universidade de
Cardiff, no País de Gales, constatou que são provavelmente as discussões
ocorridas antes, durante e depois do divórcio que causam danos às crianças, e
não a separação em si.
Ao mesmo tempo, muitas
vezes se atribui à genética a forma como as crianças respondem a conflitos. Mas
o ambiente doméstico e a qualidade das trocas afetivas dentro de casa têm um
papel central nessa equação.
Além disso, é possível
que riscos genéticos para problemas mentais sejam potencializados - para bem ou
para mal - pelo cotidiano familiar.
A qualidade do
relacionamento entre os pais é um elemento central, independentemente se os
pais moram juntos ou não, se os filhos são biológicos ou adotivos.
Brigas
sobre crianças
Que
lições os pais podem tirar disso tudo?
Primeiro, é preciso
reiterar que é perfeitamente normal que pais e cuidadores discutam ou discordem
entre si. O problema é quando eles mantêm conflitos constantes, intensos e mal
resolvidos.
E isso se agrava quando
as brigas ocorrem por causa das crianças. Nesses casos, elas costumam se sentir
culpadas e achar que elas são responsáveis pela discussão interparental.
Como resultado, elas
desenvolvem dificuldades para dormir, têm o desenvolvimento cerebral impactado,
maior risco de sofrer de ansiedade e depressão, de desenvolver mau comportamento,
de ir mal nos estudos e de se deparar com riscos bastante sérios - como o de se
automutilar.
Já se sabe há décadas que
a violência no ambiente doméstico é bastante danosa para as crianças
envolvidas. O que se descobriu mais recentemente é que, mesmo na ausência de
comportamento violento, quando os pais passam a se ignorar ou a deixar de
demonstrar respeito mútuo, também colocam em risco o desenvolvimento emocional,
comportamental e social dos filhos.
E os problemas não param
por aí: as crianças criadas em ambientes emocionalmente frágeis tendem a
perpetuar esse comportamento, o que faz com que ele passe de geração em
geração.
É um ciclo que precisa
ser quebrado se queremos que a atual geração de crianças (e a futura geração de
adultos) tenha vidas felizes e relacionamentos positivos.
Como
agir - e como discutir?
Pesquisas mostram que,
com dois anos de idade e até antes disso, as crianças são astutas observadoras
do comportamento dos pais.
Eles frequentemente
percebem as discussões, mesmo quando os pais acham que estão brigando
"escondidos".
O que importa é o modo
como a criança interpreta e entende as causas e potenciais consequências desses
conflitos domésticos.
Vai ser com base nessas
experiências que as crianças vão avaliar se o conflito pode aumentar,
envolvê-las ou colocar em risco a estabilidade familiar - algo que deixa os
filhos pequenos especialmente preocupados.
Elas também podem ficar
com medo de seu próprio relacionamento com o pai e a mãe piorarem por causa das
brigas.
Pesquisas indicam que
meninos e meninas podem reagir de modo distinto - sendo que as meninas têm
risco maior de desenvolver problemas emocionais, enquanto os meninos tendem a
desenvolver problemas disciplinares.
Com frequência, projetos
sociais voltados à saúde mental juvenil focam em amparar as crianças. Mas é
possível que amparar os pais na resolução de seus conflitos tenha um grande
impacto nessas crianças no curto prazo, além de dar a elas mais ferramentas
emocionais para formar relacionamentos saudáveis com outras pessoas no futuro.
Pais que estejam
preocupados quanto ao impacto de suas discussões nas crianças precisam saber
que as crianças, na verdade, respondem bem quando os pais explicam e resolvem
suas discussões de modo apropriado.
Ao verem os pais
solucionarem seus desentendimentos de maneira saudável, os filhos aprendem
lições importantes que os ajudarão a entender suas próprias emoções e a se
relacionar para além do círculo familiar.
Ajudar os pais a entender
como seu comportamento mútuo afeta o desenvolvimento dos filhos cria as bases
para formarmos crianças saudáveis hoje - e famílias mais saudáveis no futuro.
*Gordon
Harold é professor de Psicologia da Universidade de Sussex (Reino Unido) e
coautor do estudo sobre os impactos de conflitos interparentais nas crianças,
recém-publicado no periódico The Journal of Child Psychology and Psychiatry
Fonte: BBC Brasil
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